quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Inventário das Sombras

 


Dizemos desejos e dizemos realidade como se falássemos de dois reinos vizinhos separados por uma fronteira de alfândega rigorosa, mas a verdade, se é que a verdade se atreve a aparecer a estas horas, é que tudo se mistura num caldo turvo de intenções, vêm os bruxinhos de que falavas, esses das vassouras de capim que afinal não são mais do que a nossa vontade de varrer o pó dos dias, e nós aqui parados, com os braços abertos à espera de um abraço que o espaço raramente devolve, porque a realidade, essa senhora de modos bruscos e poucas falas, não entende de voos nem de magias de trazer por casa, o desejo quer o infinito e o céu estrelado mas o pé tropeça na pedra comum da calçada, e talvez seja esse o grande mistério, não o de voar, mas o de saber que os braços se abrem para o invisível enquanto o corpo se sustenta naquilo que pode tocar, se queres os teus desejos e a tua realidade sentados à mesma mesa, prepara-te para o silêncio que se segue à pergunta, pois no fim de todas as contas, o que nos carrega não é a vassoura, é a teimosia de acreditar que o chão também pode ser uma forma de céu, desde que os olhos não se cansem de inventar o que falta.

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