A madrugada enxia os restos de um domingo idiota. Ela encostada no pilar de
concreto, a saia de couro sintético subida até a virilha, as coxas longas brilhando
no sereno de Campinas. A peruca preta armada como um capacete de guerra e o
batom escarlate estragado nos cantos da boca.
O homem parou o carro na canaleta, a porta estalando.
Nem desligou o motor. Chegou com o maço de cigarros amassado na mão, oferecendo
um com o dedo trêmulo.
— Fuma essa desgraça comigo!
Ela olhou de soslaio, a fumaça subindo pelos olhos de
gata cansada.
— Cigarro de pobre não me compra, anjo.
— Tenho o resto do maço e uma garrafa de cachaça boa no
porta-luvas. E um quarto sem vizinho curioso na rua de trás.
A travesti deu uma risada curta, seca, que raspou no
asfalto. Jogou a cabeça para trás, avaliando o estrago daquele quarentão de
paletó amassado. Sabia o gosto de carniça que a boca dele tinha, mas a noite
estava longa e o estômago pedia um trocado.
— Anda, desgraçado. Não me faz perder o meu tempo.
No cubículo fedendo a mofo e sabão, nem tiraram a roupa
direito.
Ela deitou na beirada da cama de molas que
gritavam a cada respiração, abrindo as pernas com o desdém de quem já viu o
mundo inteiro por aquele buraco de fechadura.
O homem afundou o rosto na carne escura e quente,
lambendo a urgência e a humilhação, os dois engolindo o vômito da própria
solidão até o dia estourar cinzento lá fora.
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