O papel de parede da sala da tia Maria era um jardim de heras secas e, bem
onde o piso de pinho encontrava o rodapé carcomido, a folhagem cedia para
revelar um umbral de ferro fundido, escuro como unha de caranguejo. Clara tinha
sete anos e sabia que o silêncio na casa nunca fora paz; era a respiração presa
de algo faminto. Sua tia, que perdera a voz e a audição na febre de 42, passava
as tardes na cadeira de balanço, com os olhos vidrados na tapeçaria, enquanto
suas mãos, outrora ágeis, pareciam desatar-se como fios de lã podre.Naquela
tarde, o zumbido metálico raspando por trás do ferro acordou a casa. A maçaneta
girou sozinha, cedendo a uma umidade fétida de lodo e cinzas. Pela fresta,
Clara viu a coisa: uma silhueta esguia, de costelas longas como hastes de
guarda-chuva, agachada sobre a nuca da tia. A criatura sugava o fôlego de Maria
através de fios prateados que saíam de sua própria garganta costurada, drenando
o calor do corpo idoso para suas bochechas encovadas, que ganhavam um rubor
doentio.Tomada por um horror sem nome, Clara não fugiu. Pegou a pesada tesoura
de costura da mesa de centro e atirou-se contra a fresta. Antes que a entidade
pudesse rasgar sua carne com unhas longas como agulhas, a menina cravou o metal
frio bem no centro do cordão prateado que unia a bruxa à sua tia.Um grito
estrangulado, feito de vidro quebrado e vento de outono, sacudiu as paredes. A
bruxa recuou, chicoteando o ar com garras que rasgaram o ombro de Clara,
abrindo sulcos quentes de sangue. Mas o estrago estava feito: o cordão estalou.
Com um gemido úmido, a porta bateu com força, selando-se para sempre na parede
de heras. A tia Maria tombou para a frente, tossindo poeira preta, mas
respirando fundo, o peito subindo com uma vida que já lhe parecia esquecida.
Clara caiu de joelhos ao lado dela, o sangue manchando seu vestido, mas os
olhos grandes e brilhantes, fixos no silêncio da casa que, agora, finalmente
pertencia a elas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário