O Vale da Carne e o Emissário de Alecrim
Ezra caminhava pela topografia acidentada daquela
floresta periférica, sentindo o suor frio colar a camisa ao peito, uma sensação
que lhe recordava a passividade humilhante de sua própria existência
enclausurada. As árvores não eram apenas árvores; eram protuberâncias vegetais
de uma obscenidade agressiva, fustes de madeira úmida que imitavam, com uma
precisão biológica aterradora, a rigidez do membro masculino. Ele avançava por
aquele desfiladeiro de fábulas botânicas como quem penetra nas cavidades mais escuras
do próprio subconsciente.
No centro daquele silêncio vegetal, onde o ar tinha a
densidade de um fluido amniótico, ele surgiu.
Não era uma aparição etérea, mas uma presença de uma
fisicalidade opressiva. O Arcanjo
Negro estava ali, imóvel, uma massa de músculos e sombras que parecia ter
emergido das camadas mais profundas da terra. Suas coxas tinham a textura
fibrosa e escura da canela, e o cheiro que emanava de seus poros — um alecrim
pungente misturado ao odor metálico do sêmen — invadia as narinas de Ezra como
uma ordem fisiológica.
— Use a boca — disse o Arcanjo, com uma voz que não
vinha da garganta, mas das entranhas.
Ezra ajoelhou-se na terra úmida, sentindo o peso daquela
carne divina sobre o rosto. Ao envolver o membro pulsante e as esferas pesadas,
ele não buscava o prazer, mas uma espécie de aniquilação do eu. Era um ato de deglutição
ritualística. Saborear o salgado daquela pele era como ingerir a própria
história proibida da sua espécie.
Quando o desejo de Ezra transbordou em um pedido de
submissão total, o Arcanjo o virou com a crueza de quem manuseia um animal de
sacrifício. A penetração foi um choque de realidade pura, uma dor que rompia a
casca de sua vergonha enrustida. O Arcanjo descarregou em sua boca o fluido
quente e viscoso, uma substância que sabia a vida e a castigo.
Antes de se dissolver na penumbra das árvores
grotescas, a criatura estendeu-lhe um pergaminho manchado de óleos corporais.
— Este é o diagrama da tua degeneração — murmurou o
Arcanjo. — O mapa das regiões onde a safadeza é a única verdade. Lá, eu serei a
tua ferida aberta.
Ezra deixou a floresta com os membros trêmulos,
sentindo o gosto residual de alecrim e divindade na língua. Ele segurava o mapa
contra o abdômen, sabendo que agora era um estrangeiro em seu próprio corpo,
condenado e liberto pela cartografia de um novo e terrível mundo.
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