segunda-feira, 9 de março de 2026

O Batismo das Sombras

O Batismo das Sombras

O asfalto, sob o sol implacável da metrópole, exalava o bafo de uma besta adormecida, queimando a planta dos pés de João. Aos quinze anos, ele vagava pelas vielas do centro como um navegante sem astrolábio, perdido entre o suor das multidões e o hálito de gasolina que embriagava o ar. Foi quando a voz dela, impregnada de uma gravidade ancestral, rasgou o tecido do meio-dia:

— Ei, gato… Estás perdido nas tuas próprias rotas?

Era uma mulher esculpida pela urgência das esquinas. Seu vestido, uma segunda pele que desafiava a moral dos passantes, trazia o mapa de um corpo exausto e soberano, com a face levemente borrada pelo estio. Os olhos dela, lentos e calculistas como os de uma divindade decadente, percorreram a geografia imatura do rapaz. João sentiu o peso daquela mirada e, num esforço de dignidade, ensaiou a mentira necessária:

— Busco a Avenida São João — disse ele, com a voz ainda em disputa com a infância.

Ela soltou uma risada que ecoava como o tilintar de moedas velhas, enquanto seus dedos, ávidos de si mesmos, percorriam o abismo do próprio decote.

— Pela tua face, menino, buscas o que ainda não sabes nomear.

Antes que a razão pudesse erguer seus muros, ela o capturou. Puxou-o para a penumbra de um beco, um enclave onde o tempo parecia suspenso. O aroma que a envolvia era um paradoxo: o doce das flores baratas entrelaçado ao ácido da sobrevivência. No silêncio cúmplice das paredes manchadas, ela sussurrou a pergunta que era, em verdade, um mandamento, enquanto erguia a saia para revelar o altar da sua carne.

João, habitado por um pavor sagrado, iniciou-se no mistério. Aprendeu ali a gramática das línguas travadas e o tremor dos dedos que descobrem o mundo. O gosto salgado que se colou ao seu paladar não era apenas o da volúpia, mas o sabor da própria existência, bruta e sem adornos. Sob o domínio das mãos dela, que lhe puxavam o cabelo como quem reclama uma oferenda, João oscilou entre a morte e o nascimento, entre a vergonha que o oprimia e o tesão que o libertava.

Consumado o rito, ela limpou-lhe os vestígios da iniciação com o polegar, um gesto de quase maternal ironia.

— Ainda conservas o fôlego, princesa?

João entregou-lhe o papel-moeda, o tributo devido àquela sacerdotisa do asfalto, e partiu com o passo incerto de quem acaba de atravessar um oceano. Na esquina, sob a luz violenta da realidade, ele olhou para trás. O beco já havia devorado o evento; estava vazio, impessoal, como se a memória fosse uma ficção.

Limpando o suor que era agora o seu novo batismo, ele exalou um pensamento que era, ao mesmo tempo, um lamento e uma descoberta sobre a natureza de seus próprios desejos:

— Por Deus… devia ter buscado o corpo de um homem.

E, com essa nova consciência pesando-lhe nos ombros como um manto, sumiu no ventre da multidão.

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário