O Batismo das Sombras
O
asfalto, sob o sol implacável da metrópole, exalava o bafo de uma besta
adormecida, queimando a planta dos pés de João. Aos quinze anos, ele vagava
pelas vielas do centro como um navegante sem astrolábio, perdido entre o suor
das multidões e o hálito de gasolina que embriagava o ar. Foi quando a voz
dela, impregnada de uma gravidade ancestral, rasgou o tecido do meio-dia:
— Ei,
gato… Estás perdido nas tuas próprias rotas?
Era uma
mulher esculpida pela urgência das esquinas. Seu vestido, uma segunda pele que
desafiava a moral dos passantes, trazia o mapa de um corpo exausto e soberano,
com a face levemente borrada pelo estio. Os olhos dela, lentos e calculistas
como os de uma divindade decadente, percorreram a geografia imatura do rapaz.
João sentiu o peso daquela mirada e, num esforço de dignidade, ensaiou a
mentira necessária:
— Busco a
Avenida São João — disse ele, com a voz ainda em disputa com a infância.
Ela
soltou uma risada que ecoava como o tilintar de moedas velhas, enquanto seus
dedos, ávidos de si mesmos, percorriam o abismo do próprio decote.
— Pela
tua face, menino, buscas o que ainda não sabes nomear.
Antes que
a razão pudesse erguer seus muros, ela o capturou. Puxou-o para a penumbra de
um beco, um enclave onde o tempo parecia suspenso. O aroma que a envolvia era
um paradoxo: o doce das flores baratas entrelaçado ao ácido da sobrevivência.
No silêncio cúmplice das paredes manchadas, ela sussurrou a pergunta que era,
em verdade, um mandamento, enquanto erguia a saia para revelar o altar da sua carne.
João,
habitado por um pavor sagrado, iniciou-se no mistério. Aprendeu ali a gramática
das línguas travadas e o tremor dos dedos que descobrem o mundo. O gosto
salgado que se colou ao seu paladar não era apenas o da volúpia, mas o sabor da
própria existência, bruta e sem adornos. Sob o domínio das mãos dela, que lhe
puxavam o cabelo como quem reclama uma oferenda, João oscilou entre a morte e o
nascimento, entre a vergonha que o oprimia e o tesão que o libertava.
Consumado
o rito, ela limpou-lhe os vestígios da iniciação com o polegar, um gesto de
quase maternal ironia.
— Ainda
conservas o fôlego, princesa?
João
entregou-lhe o papel-moeda, o tributo devido àquela sacerdotisa do asfalto, e
partiu com o passo incerto de quem acaba de atravessar um oceano. Na esquina,
sob a luz violenta da realidade, ele olhou para trás. O beco já havia devorado
o evento; estava vazio, impessoal, como se a memória fosse uma ficção.
Limpando
o suor que era agora o seu novo batismo, ele exalou um pensamento que era, ao
mesmo tempo, um lamento e uma descoberta sobre a natureza de seus próprios
desejos:
— Por
Deus… devia ter buscado o corpo de um homem.
E, com
essa nova consciência pesando-lhe nos ombros como um manto, sumiu no ventre da
multidão.
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