segunda-feira, 9 de março de 2026

A chuva...


 

O neon do boteco piscava como um convite sujo quando Milton avistou Simone. Ela estava encostada no poste, a saia de couro colada nas coxas escuras, fumando com aquele jeito de quem sabe que é desejada.

"Quanto pelo copo, gata?" Milton perguntou, a voz já rouca de antecipação.

Simone soltou uma fumaça lenta antes de responder: "Duzão. E não é só leite não, branquelo." O sorriso dela revelou um brinco de diamante na língua.

Ele já estava puxando a nota quando ela pegou seu queixo com as unhas vermelhas: "Mas tem condição. Vai lamber onde eu mandar até eu gemar igual puta no cio. Topa?"

O banheiro do bar tinha paredes sujas de histórias parecidas. Milton ajoelhou no chão pegajoso enquanto Simone levantava a saia. O cheiro dela era salgado, um musk de adrenalina e desejo que fez seus olhos lacrimejarem. Quando a língua dele encontrou o buraco apertado, ela arqueou as costas contra a pia, os seios pulando sob o top de renda.

"Assim mesmo, viado lambedor", Simone rosnou, enfiando os dedos nos cabelos grisalhos dele.

Minutos depois, quando o jorro azedo da mija dela escorria pela garganta de Milton, ele percebeu que nunca mais ia conseguir beber cerveja sem ficar duro.


O neon do botequim, num espasmo de luz barata, desenhava o contorno de Simone no poste — uma aparição de couro e ébano que parecia reger o trânsito das almas perdidas. Milton, com o juízo já embaçado pela última dose, aproximou-se com a voz arranhada, aquela rouquidão de quem já perdeu todas as apostas, mas ainda insiste em dobrar o lance.

— Quanto custa o gole dessa tua fonte, gata?

Simone, mestra no ofício do silêncio, devolveu uma nuvem de fumaça que pairou entre os dois como uma cortina de teatro de periferia. O sorriso veio depois, ostentando o diamante na língua como se fosse a joia da coroa de um reino clandestino.

— Duzentos, branquelo. E aviso logo: a água aqui é salgada e a maré não perdoa.

As unhas dela, de um vermelho-pecado, pinçaram o queixo de Milton com a precisão de um anzol. Havia um contrato no ar, uma cláusula escrita com batom e suor: ele teria que descer aos porões, lamber o rastro dos passos dela, perder a pose e ganhar o estigma. Milton, mais do que topar, rendeu-se.

O banheiro do bar era o confessionário dos sem-fé. Entre paredes que suavam as histórias de mil outros miltons, ele ajoelhou-se no chão que guardava o ranço de todas as esperas. Quando Simone suspendeu a saia, o que subiu não foi apenas o cheiro de musk e adrenalina; foi o perfume da própria perdição.

— Vai, meu poeta de sarjeta — rosnou ela, enquanto as mãos de rainha se enterravam na prata dos cabelos dele. — Prova do meu veneno pra ver se você vira homem.

E ali, sob o teto descascado e o som dos copos batendo no balcão lá fora, Milton cumpriu o seu fado. Quando o jorro quente e azedo lhe batizou a garganta, ele não sentiu nojo, sentiu a posse. Saiu de lá com o gosto dela impregnado na alma, sabendo que, de agora em diante, qualquer copo de cerveja seria apenas um rascunho sem graça daquele néctar proibido que lhe deixaria o sangue em brasa para sempre.

 


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