O ENTREMEZ DE DODÓ E O CORONEL ENGANADO
Personagens:
DODÓ – pequeno sertanejo, magro, olho vivo e fala mansa
CORONEL FIRMINO – homem rico do Sul, cheio de pose e ganância
(Palco simples. Uma mala velha no chão. DODÓ entra, admirado.)
DODÓ
Valha-me Deus, que terra fria é essa!
Aqui o vento corta mais que faca cega.
Mas dinheiro, dizem, anda solto…
e eu vim só catar uns trocados.
(Entra o CORONEL, de chapéu grande e barriga maior ainda.)
CORONEL
Ora, ora!
Quem é esse cabra pequeno
com cara de quem não sabe contar até dez?
DODÓ
Sou Dodó, senhor.
Não sei contar até dez, não…
só sei contar dinheiro.
CORONEL
(ri)
Pois veio ao lugar certo!
Tenho um ótimo negócio pra você.
Essa mala aqui vale uma fortuna,
mas como sou homem bom,
vendo baratinho.
DODÓ
(olhando a mala)
E o que tem dentro?
CORONEL
Segredo valioso.
Só abrindo depois de pagar.
DODÓ
Ah…
então é igual bode em saco.
Quem compra sem ver
ou ganha muito
ou perde tudo.
CORONEL
Vai perder, cabrinha.
DODÓ
(sereno)
Então façamos assim:
o senhor me empresta o dinheiro
pra eu comprar a mala,
se for ruim, fico devendo;
se for boa, pago com gosto.
CORONEL
(vaidoso)
Fechado!
Coronel Firmino nunca perde.
(O CORONEL entrega um maço enorme de dinheiro. DODÓ guarda com cuidado.)
DODÓ
Pronto.
Agora vou ali abrir a mala.
(DODÓ sai correndo. O CORONEL espera. Espera.)
CORONEL
(impaciente)
Ora essa…
Demora danada…
(DODÓ volta, sem a mala.)
DODÓ
Seu coronel,
abri a mala.
CORONEL
E então?!
DODÓ
Tinha dentro só espelho.
Acho que o valor era pra quem se enxergasse.
CORONEL
Cadê meu dinheiro?!
DODÓ
Tá comigo.
Negócio é negócio.
O senhor disse que não perdia nunca.
Hoje ganhou experiência.
CORONEL
Ladrão! Miserável!
DODÓ
Que isso, coronel.
Sou só um sertanejo pequeno…
mas besta eu deixei no meu sertão.
(DODÓ sai assobiando. O CORONEL cai sentado.)
CORONEL
Fui enganado…
por um homem do tamanho de um palito!
(Luz baixa.)
FIM

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