Eu amei como ama a célula em delírio,
no espasmo vil da carne em decomposição;
meu beijo foi fermento e foi martírio
na química feroz da combustão.
Amor pagão —
sem céu, sem cruz, sem hóstia redentora,
feito de suor, bactéria e maldição.
Amar-te foi cair na mesma aurora
onde a vida apodrece em gestação.
Teu corpo: um laboratório de vertigens,
onde a libido, em fúria, se condensa;
teus olhos, dois abismos que exigem
a ruína total da minha crença.
Oh! Não houve alma — houve nervos.
Não houve eternidade — houve instante.
A volúpia rangia entre os ossos
como um verme faminto e triunfante.
Amei-te como a matéria ama o caos,
como o carbono ama a putrefação,
sabendo que no ápice dos ais
já germinava a larva da extinção.
E quando o gozo — esse clarão perverso —
se extinguiu na fadiga do tecido,
restou-me o horror químico do universo
dentro do crânio exausto e repartido.
Amor pagão!
Religião sem deuses nem perdão,
onde o altar é a carne em combustão.
Eu te celebrei nu, blasfemo e só,
sabendo: amar é já morrer um pó
com consciência e febre no coração.
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