segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Schreien

 A paisagem é uma mercadoria barata, 

embalada a vácuo para o consumo 

de olhos cansados.

Não há salvação na água, apenas 

o reflexo do nosso próprio esgotamento 

escorrendo pelas margens de concreto.


A carne jaz sobre a terra, não para descansar, 

mas para aguardar a brutal esterilização da luz.

Dizem que a natureza cura, mas ela apenas

 observa, indiferente, artificial e compartimentada.

Implantados na retina, como agulhas 

douradas de um interrogatório, 

os raios de sol incidem onde vejo o rio azul.


Mas o azul é químico.

O azul é o cianeto da indústria, 

a água residual desinfetada que lava nossa culpa de classe.

O rio não nos perdoa; engole 

a ferrugem, os sacos e os sonhos

 mortos das mulheres que esfregam o chão.

Tudo está à venda.

Até mesmo a luz que atinge

 a superfície da água morta, exigindo felicidade.


Sorria para a câmera. Sorria 

enquanto a água lentamente te afoga.

Eles enterram desejos, esmagam a terra,

e entregam a mudança na 

forma de um cartão-postal:

um azul de vitrine.

Um azul estéril, engarrafado,

vendido a preço de banana para gargantas 

que já se esqueceram de como gritar.

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