A paisagem é uma mercadoria barata,
embalada a vácuo para o consumo
de olhos cansados.
Não há salvação na água, apenas
o reflexo do nosso próprio esgotamento
escorrendo pelas margens de concreto.
A carne jaz sobre a terra, não para descansar,
mas para aguardar a brutal esterilização da luz.
Dizem que a natureza cura, mas ela apenas
observa, indiferente, artificial e compartimentada.
Implantados na retina, como agulhas
douradas de um interrogatório,
os raios de sol incidem onde vejo o rio azul.
Mas o azul é químico.
O azul é o cianeto da indústria,
a água residual desinfetada que lava nossa culpa de classe.
O rio não nos perdoa; engole
a ferrugem, os sacos e os sonhos
mortos das mulheres que esfregam o chão.
Tudo está à venda.
Até mesmo a luz que atinge
a superfície da água morta, exigindo felicidade.
Sorria para a câmera. Sorria
enquanto a água lentamente te afoga.
Eles enterram desejos, esmagam a terra,
e entregam a mudança na
forma de um cartão-postal:
um azul de vitrine.
Um azul estéril, engarrafado,
vendido a preço de banana para gargantas
que já se esqueceram de como gritar.
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