O RETORNO DOS NOMES
Fui muitos, como as águas que mudam de rosto
sob o mesmo céu de inverno.
Mudei de nome na sombra,
ali onde o silêncio tece a sua teia de musgo,
e fui outro no dia,
com o orgulho solar de quem carrega o meio-dia nos ombros.
No fim, quando as vozes se cansam de ser ecos,
procurei o repouso das pedras.
Mas vieram as maçãs.
Perseguiram-me com o seu peso vermelho,
com a sua fragrância de pecado e de pomar antigo,
rolando por entre meus passos como astros caídos da árvore do tempo.
Era a vida me cobrando a doçura e o sangue.
Por fim, acordei.
Acordei sobre a terra nua,
onde os nomes já não pesam
e o coração, enfim, entende o seu ofício de ser terra,
raíz e luz definitiva.
O INVENTÁRIO DO FOGO
Nasci em Adamantina, onde a terra se faz joia e dureza,
e eu era apenas um pássaro nu,
um estilhaço de canto sem ninho,
desprovido de raízes, flutuando sobre o pó dos caminhos.
Fui um náufrago de crenças e de léguas.
Vi-me perdido na procissão das sombras:
entre o pranto milenar dos judeus,
o mistério errante dos ciganos,
e o incenso pesado onde católicos e evangélicos
disputam o silêncio de Deus com as suas vozes de metal.
Até a Espanha me feriu,
com suas pedras secas e seu sangue de touro antigo,
cravando em meu peito a sua espada de luz e de guerra.
Mas no centro do deserto, quando tudo era cicatriz,
encontrei o meu porto e minha cinza:
achei um coração de fogo,
não nas igrejas ou nas pátrias,
mas na substância invencível do amor.
O PEREGRINO DAS CINZAS
Pisei as escadas de prata da lua
e o orvalho frio das colinas de outono,
mas as mãos que busquei eram névoa,
e os nomes que chamei eram sono.
Vou vagando em sonhos mortos,
onde a espada de Sato não brilha,
por corredores de tapeçarias gastas
onde o tempo perdeu sua trilha.
Não busco o pão, nem a chama,
nem o ouro que o mercado seduz;
busco o rosto que a noite reclama,
a sombra que outrora foi luz.
Que os deuses das colinas se calem,
pois meu reino é de vento e de ossos;
sou o rei de uma terra de nada,
vago eterno em meus sonhos mortos.
Vaguei entre elfos e acordei entre o mar
Vaguei onde o crepúsculo tece o linho das fadas,
Sob o espinheiro branco, onde o tempo se detém;
Bebi o vinho das colinas, em taças cinzeladas,
E esqueci que a carne morre e o mundo vai e vem.
Mas o riso das hostes é um cristal que se quebra,
E o sonho da colina é uma pálpebra a fechar;
A magia se esvai como a fumaça na névoa,
E despertei sozinho, entre o sal e o vasto mar.
A solidão do meu coração oriental
A espada de Sato repousa sobre a seda pura,
Um espelho de aço para um sol que já se pôs;
Busco na curva do bambu a geometria dura
Que separa o eterno do que restou de nós.
Meu coração, que outrora foi bardo e tempestade,
Agora se cala na sombra de um pagode lunar;
Pois descobri que a paz é uma fria autoridade,
E a solidão, um segredo que o Oriente veio me dar.
Lembrei-me dela envelhecida e não chorei
Vi as rugas traçarem o mapa de um fogo antigo,
Onde antes havia o brilho de um triunfo solar;
A beleza que outrora fez do mundo seu inimigo
Agora é uma sombra mansa, cansada de lutar.
Lembrei-me de sua face, outrora altiva e estranha,
E do orgulho que nos fez perder a voz e a vez;
Mas não chorei o tempo, nem a cinza que o acompanha:
Amei a alma que a ruína, enfim, nos revelou com lucidez.
A escada de caracóis
Subo os degraus de pedra da torre em ruína,
Onde o vento da noite sopra um hino ancestral;
A escada de caracóis, em sua espiral divina,
Leva o homem ao encontro de seu duplo imortal.
A cada volta, a terra se faz pequena e obscura,
A cada degrau, o sangue se transmuta em luz;
Pois o topo da torre não é a morte, mas a altura
Onde o Eu se despoja de tudo o que o seduz.
Valsa meu peito
Ritmo de osso contra o osso.
O tórax:
Uma caixa de música quebrada.
Porque choro?
Sal sobre o ferro.
A chuva não pede licença
Ao rosto de mármore.
Até o jardim do éden na áfrica
Sol vertical.
A argila vermelha entre os dedos:
O primeiro hálito, o último pó.
Vi seus olhos nus de peixes
Duas moedas de prata
No fundo do aquário.
Um olhar sem pálpebras.
Para um coração chorar é preciso beijos
Pressão labial.
A válvula se abre:
Sangue e água na fenda.
Não se esqueça de dizer adeus para elas
Luvas pretas sobre o balcão.
O perfume que fica
É o único corpo que resta.
As putas de paris são felizes
Riso de absinto.
Meias de seda na sarjeta:
A moeda brilha no escuro.
A NEGRA que me ensinou o amor
Ébano vivo.
O mapa do mundo
Traçado em suor e obsidiana.
O anjo caído sou eu
Asas de chumbo no asfalto.
A queda
É o único vôo que não mente.
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