A Anja Caída
Dedido para Mo Yan e
Kenzaburo Oe, mestres do Oriente
O cheiro
não era de glória, mas de intestino furado e sorgo podre fermentando sob o sol
impiedoso de Gaomi. Shigeru, cujas mãos ainda tinham a maciez da infância órfã
nos templos de Kyoto, segurava o fuzil Arisaka como se fosse uma cruz profana.
Ele não queria estar ali. Ele queria o silêncio dos sutras, não o tcheco-tcheco
metralhado das rãs nos pântanos de sangue, que pareciam zombar dos gritos dos
moribundos. A guerra era um estômago gigante que devorava homens e cuspia
fantasmas.
Sua
unidade avançava pelas plantações de sorgo, que se erguiam como paredes de um
labirinto escarlate. Foi quando ele a viu.
Ela
estava sentada sobre um monte de corpos chineses retorcidos, com a naturalidade
de quem descansa em um jardim de peônias. Era a mulher mais linda que Shigeru
já vira, uma visão de porcelana em meio ao barro. Seus cabelos eram negros como
o nanquim fúnebre, e sua pele brilhava com uma palidez lunar. Mas quando ela
sorriu, Shigeru viu que seus dentes eram afiados como agulhas de costurar
couro, e atrás dela, misturando-se com a fumaça das vilas queimadas, pairavam
asas. Não asas de penas, suaves e brancas, mas membranas coriáceas, negras e
úmidas, como as de um morcego gigante destilando o luto do mundo.
— Shigeru
— a voz dela era o zumbido de mil moscas varejeiras varejando um cadáver doce.
— Você parou. Por que parou?
Shigeru
tremia. O medo paralisava suas pernas, fazendo o suor frio escorrer pelas
costas como vermes. — Quem é você? Uma Anja?
— Eu sou
o que você precisa que eu seja, pequeno soldado. Eu sou a justiça do Imperador.
Eu sou a fome do aço — ela desceu do monte de mortos com uma graça
sobrenatural. Suas unhas eram garras longas, pintadas com o sangue seco dos
camponeses. Ela tocou o peito de Shigeru, e ele sentiu o calor de uma fornalha.
— Você deve matar, Shigeru. Matar sem piedade. Corte as gargantas deles como se
fossem talos de sorgo. Beba o sangue deles para que sua própria fraqueza
desapareça. Cada chinês que você poupa é uma traição à sua existência.
Shigeru
olhou para o fuzil, depois para as plantações, onde os gritos dos civis ainda
ecoavam. A doutrina da paz que os monges lhe ensinaram lutava contra o terror
ancestral que a demônia emanava.
— Não...
— Shigeru gaguejou, a voz falhando. — Isso é contra... isso é contra as leis da
paz. O buda ensina a compaixão. Eles são homens, como eu. Têm mães, têm fome.
Eu não posso...
O rosto
da Anja Caída transfigurou-se. A beleza de porcelana rachou, revelando uma
mandíbula que se alongava, cheia de dentes múltiplos, e olhos que se tornaram
fendas verticais amarelas. O cheiro de peônias foi substituído pelo fedor
insuportável de enxofre e decomposição avançada.
— Paz?
— Ela rugiu, e o som fez as folhas de sorgo tremerem. — A paz é uma mentira
para os fracos! O mundo é dor e conquista! Se você não devora, você é devorado!
Com um
grito que rasgou o ar, ela saltou sobre ele. Suas garras buscaram os olhos de
Shigeru. Ele agiu por puro instinto animal, o fuzil subindo não como uma arma
de paz, mas como um porrete de desespero. A baioneta calada penetrou a membrana
da asa direita da demônia, que soltou um uivo de agonia que soou como metal
rangendo contra metal.
Eles
rolaram no barro infestado de sangue. Ela mordia e arranhava, sua pele
queimando a dele como ácido. Shigeru, em um transe de terror e fúria
sobrevivente, agarrou uma pedra pesada e pontuda no chão e golpeou-a
repetidamente na cabeça, no lugar onde a beleza costumava estar. O sangue que
jorrava dela era preto e fedia a óleo queimado. Ele golpeou até que as asas
coriáceas pararam de debater, até que o corpo dela se dissolveu em uma poça de
piche borbulhante que a terra do sorgo recusava absorver.
Shigeru,
exausto e coberto daquele piche imundo, olhou para o céu. O sol de Gaomi estava
se pondo, vermelho como o inferno. Ele sentiu o mundo girar, a realidade se
desfazendo como papel molhado.
Ele
acordou com o som não de tiros, mas de tossidas secas e o gotejar rítmico de
algum líquido. O teto não era feito de folhas de sorgo, mas de gesso descascado
e vigas de madeira carbonizada. O cheiro não era de enxofre, mas de iodo, urina
velha e ferrugem.
Shigeru
tentou se mover, mas seu corpo pesava como chumbo. Ele estava deitado em uma
cama de ferro rangendo, em um hospital em ruínas. Pela janela sem vidro, ele
viu, em vez das planícies chinesas, uma paisagem de cinzas e esqueletos de
prédios. Era o Japão. Estava em casa, mas a casa estava morta.
Uma
enfermeira com o rosto coberto por uma máscara de pano suja aproximou-se, seus
olhos cansados mal olhando para ele. Ela tocou sua testa e retirou a mão
rapidamente, como se tivesse tocado em brasa.
— Ele
está ardendo de febre — ela murmurou para ninguém em particular, injetando algo
no braço dele com uma agulha cega. — Alucinando de novo. Falando sobre anjos e sorgo.
Shigeru
fechou os olhos, a febre subindo como uma maré negra, trazendo de volta o
cheiro de enxofre e o sorriso de dentes de agulha. Ele percebeu, com uma
clareza terrível, que a demônia nunca tinha saído do lado dele. Ela era a
guerra, e a guerra nunca termina, apenas muda de leito.
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