O sol abrasador do Cairo castigava as ruelas de Khan el-Khalili, enquanto Nacib, um jovem com olhos que carregavam a melancolia do deserto e a curiosidade do viajante, preparava sua partida. Sua família, tecelões de tapetes com histórias tão antigas quanto as pirâmides, via com desconfiança a jornada do caçula ao Brasil, uma terra distante de selva e mistério. "Não te percas, Nacib", advertiu seu irmão mais velho, Omar, com a voz embargada pela preocupação. "Volta para casa, para as areias que te viram nascer." Mas Nacib apenas sorriu, um sorriso que mesclava a promessa do retorno com a excitação do desconhecido.
A travessia do oceano foi longa, embalada pelo balanço das ondas e pelos sonhos de um novo mundo. Ao aportar em Salvador, Nacib sentiu um calor diferente, não o do deserto, mas o de uma vida vibrante que pulsava em cada esquina. As cores das casas coloniais, o som do atabaque que ecoava dos terreiros, o cheiro de dendê e especiarias no ar – tudo o seduziu. Caminhou pelas ladeiras do Pelourinho, seus olhos arregalados com a beleza das mulheres, a cadência da capoeira, a energia contagiante que parecia preencher cada fresta da cidade. "Isso é vida!", exclamou para si mesmo, um estranho em terra estranha, mas que já sentia um elo inquebrável.
De Salvador, o destino o levou a São Paulo, uma metrópole de arranha-céus que rasgavam o céu, um formigueiro humano onde a vida corria em ritmo vertiginoso. As luzes da Avenida Paulista, o burburinho dos mercados, a mistura de culturas que se encontravam e se mesclavam nas ruas. Nacib, acostumado ao ritmo pausado do Nilo, viu-se engolido por uma torrente de oportunidades e sensações. Trabalhou em pequenas lojas, aprendeu o português com a rapidez de quem absorve a nova terra, e cada dia que passava, o Egito parecia mais distante, uma memória desbotada pelo brilho do presente.
Os meses viraram anos, e as cartas de Omar, antes cheias de esperança e súplicas pelo retorno, tornaram-se mais esparsas e carregadas de preocupação. "Quando voltas, Nacib? A família sente tua falta. Teu lugar está aqui." Mas Nacib não respondeu. A melancolia do deserto havia sido substituída pela alegria do sol tropical, e a curiosidade do viajante havia se transformado na paixão do imigrante. Ele se perdeu no Brasil, não por acidente, mas por escolha. Dissolveu-se na multidão, seus traços árabes misturados aos de tantos outros que ali buscavam um novo começo.
No Cairo, Omar, com os cabelos já salpicados de prata, continuava a tecer tapetes, mas seu coração carregava um fio de tristeza. A cadeira de Nacib permanecia vazia nas reuniões de família, seu nome sussurrado com um misto de saudade e resignação. Um dia, Omar mandou afixar anúncios nas embaixadas e consulados, com uma fotografia antiga de Nacib, um menino de olhar sonhador. "Recompensa de cem dinares a quem tiver qualquer informação sobre Nacib, meu irmão, o árabe perdido no Brasil." Mas o vento, que antes trazia o cheiro de especiarias do oriente, agora soprava do ocidente, e com ele, apenas o silêncio. Nacib havia encontrado seu novo deserto, um vasto e luxuriante paraíso verde-amarelo, onde sua alma finalmente descansara.
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