- E assim falou o Senhor, com voz de trovão e fumos de enxofre, Que a iniquidade dos homens era grande na Terra. Grande, disse, e talvez maior que a sua própria paciência, Que, a bem da verdade, já não era infinita, nem nunca fora. E Noé, homem justo, ou pelo menos o mais justo disponível no momento, Ouviu o mandamento, ouviu o desígnio do Criador, E pôs-se a construir, com tábuas e calafates, Um monstro de madeira, um navio sem porto certo, A Arca. Para salvar, disse o Senhor, a espécie, o bicho, a planta, De cada par, macho e fêmea, um exemplar, ou dois, ou mais, Depende da espécie, e do espaço disponível, E da paciência de Noé, que também tinha limites.E assim entraram, dois a dois, os bichos do mundo, Os leões e as gazelas, os falcões e os pombos, Numa convivência forçada, digamos assim, Onde a lei da selva foi suspensa, por tempo indeterminado, Ou até o desembarque, o que viesse primeiro. E Noé, com sua família, e os fedores de bicho, E os barulhos da Criação em cativeiro, Perguntava-se, em silêncio, na sua sabedoria de homem simples, Se valia a pena, todo este trabalho, toda esta inundação, Para salvar o que já estava condenado, Ou o que, talvez, merecesse ser lavado. E a água subiu, e subiu, e cobriu as montanhas, As árvores, as casas, os gritos dos que ficaram para trás, E Noé, na sua Arca, boiava sobre o abismo, Um pontinho de fé, ou de obediência cega, No meio de um mar sem fim, e sem esperança, Para os outros, os que não couberam, ou não foram chamados. E quando a água baixou, e a terra seca reapareceu, Noé desembarcou, com sua família, e os bichos, E um arco-íris de promessa no céu, Para recomeçar, para refazer o mundo, Com os mesmos erros, as mesmas vaidades, os mesmos pecados, Mas com a lembrança da Arca, e do dilúvio, E da ironia divina, que a tudo preside, E que se repete, e se repete, ad infinitum, Até o próximo dilúvio, ou a próxima Arca, Se é que haverá, depois desta, outra chance.
E aconteceu que, passados os séculos que naquelas eras valiam por semanas, Noé, ainda com o cheiro de mofo e esterco da arca impregnado na memória, encontrou Abrão sob a sombra de um carvalho que parecia tão velho quanto o próprio tempo. Noé, sentado num banco de pedra, olhava para o horizonte seco, e Abrão, que trazia nos pés o pó de muitas caminhadas, parou diante dele, sem saber se o que via era um homem ou um monumento à sobrevivência.
— Dizem que salvaste o mundo, Noé, disse Abrão, mas eu olho para estas pedras e vejo apenas o vazio que o teu Deus deixou. Noé, sem desviar o olhar do nada, respondeu com a voz rouca de quem engoliu muita água salgada: — Salvei o que me mandaram salvar, Abrão, mas a questão, que nenhum profeta me soube responder, é se o que ficou no fundo do mar não seria, afinal, a parte que mais falta nos faz. Nesse instante, como se as palavras dos homens fossem o gatilho para o verbo divino, a voz de Deus, que não é voz mas um estrondo que se faz silêncio, desceu sobre eles: — Por que murmurais sobre o que foi lavado? Não vos dei a terra limpa, o arco-íris e a promessa? Não estais aqui, vivos, a questionar a minha obra em vez de a glorificar? Abrão, que não era de se calar perante as alturas, retorquiu: — Senhor, a promessa é bela, mas a terra está cheia de perguntas que a água não afogou, e Noé aqui presente, que viu os animais entrarem aos pares, sabe bem que a solidão de quem fica é maior que a de quem parte.
Foi então que, do meio das sombras do carvalho, surgiu uma figura que carregava na testa uma marca que nem o sol mais forte conseguia apagar. Era Caim, com as mãos vazias e os olhos cheios de uma clareza terrível. — Falais de salvação e de promessas, disse Caim, mas esqueceis que a terra onde pisais foi regada com o sangue do meu irmão, que eu mesmo derramei, e que nenhum dilúvio, por mais fundo que fosse, conseguiu lavar das minhas palmas. Matei Abel, Senhor, e aqui estou, para provar que a tua criação tem uma falha que nenhuma arca pode consertar. Houve um silêncio no céu, um daqueles silêncios de Deus que fazem os homens tremerem, não de medo, mas de cansaço. Deus, então, ignorando a ferida aberta de Caim como quem ignora uma pedra no caminho, dirigiu-se a Abrão, pois os deuses preferem sempre o futuro ao passado: — Deixa lá o que Caim fez, que isso já está na conta da história. Para ti, Abrão, tenho um negócio melhor. Olha para este chão, para esta poeira, para esta distância. Dar-te-ei uma terra, uma terra que será tua e dos teus, onde o leite e o mel correrão como se a maldade nunca tivesse existido.
Noé sorriu com uma amargura de séculos, e Caim deu as costas, voltando para a sua errância eterna. Abrão olhou para o chão prometido e pensou, com a lucidez que Saramago lhe emprestaria, que uma terra prometida por Deus é sempre uma terra que terá de ser tirada de alguém, e que o ciclo, afinal, nunca foi de água, mas de sangue e de posse.
E assim se deu, pois nos livros da história que os homens não escrevem, as estradas cruzam-se de modos que a lógica desdenha. Caim, o errante, aquele que carregava o peso de ser o primeiro a inventar a morte, encontrou a mulher de Ló — que o cânone insiste em não nomear, mas que aqui chamaremos de Edith, por falta de melhor e excesso de vontade.
Ela não era ainda sal, era apenas carne e descontentamento, parada à beira do caminho enquanto Ló, o marido justo e enfadonho, contava as ovelhas e as virtudes. Caim aproximou-se com o passo de quem não teme o julgamento, pois quem já foi marcado por Deus já não espera mais nada do céu.
— Olhas para trás por que razão? perguntou Caim, e a voz dele tinha o som de terra revolvida. — Olho porque o que deixo é mais vivo do que o deserto para onde me levam, respondeu ela, e o olhar dela encontrou a marca na testa dele, não com horror, mas com reconhecimento.Ali mesmo, sob o silêncio de um Deus que parecia ocupado com outras geografias, a carne celebrou o seu próprio culto. Não houve amor, houve apenas a urgência dos que sabem que o mundo está a acabar. Daquela união de sombras e poeira, nasceram os moabitas e os amonitas, povos que a história guardaria para mais tarde, como provas vivas de que a linhagem do pecado é mais fértil que a da santidade.Mas o Senhor, que tudo vê e às vezes se cansa de ver tanto, decidiu que a ironia deveria ter a última palavra. Num gesto que parecia justiça mas era apenas estética, Deus estendeu a mão: não sobre a mulher, que já esperava o castigo, mas sobre Caim. E o primeiro assassino, que sobrevivera ao tempo e ao remorso, sentiu o sangue endurecer, a pele branquear, e transformou-se numa estátua de sal, um monumento branco e amargo no meio do nada, para que as cabras tivessem onde lamber a sede. Edith, a mulher de Ló, vendo o amante tornado mineral, não chorou. Sacudiu a poeira da túnica, olhou para a estátua com um desprezo de quem já viu milagres piores, e deu meia-volta. Não seguiu Ló para as cavernas da montanha, mas regressou às cinzas de Sodoma, que o fogo ainda não tinha esfriado de todo. Lá, entre as colunas derrubadas e o cheiro a enxofre, Edith fundou o que chamou de "O Jardim das Delícias Sobreviventes". Entendeu, na sua sabedoria prática, que onde há destruição, há necessidade de esquecimento, e que nada faz esquecer melhor do que o comércio do prazer. Estabeleceu uma empresa de prostituição que floresceu sobre as ruínas, provando que o vício, ao contrário das cidades, é indestrutível. Enquanto Ló se perdia em vinhos e filhas na solidão da gruta, Edith tornava-se a rainha do submundo das cinzas, cobrando em ouro o que antes se dava por pecado, e rindo, todas as manhãs, da estátua de sal que, lá longe, guardava a entrada de um paraíso que ela já não queria habitar.
E assim se passaram os dias, ou os anos, que na contagem do tempo são apenas poeira acumulada sobre os ombros dos homens. Pôncio Pilatos, agora um funcionário aposentado da engrenagem imperial, com as articulações a doerem-lhe por causa do frio e a memória a desfazer-se como pergaminho exposto à humidade, sentava-se a uma mesa de mármore, olhando para um prato de azeitonas como se nelas buscasse o sentido do universo.
À sua frente, um sírio de barba cerrada e olhos de mercador, homem habituado a carregar seda e segredos, observava-o com uma curiosidade que não era de devoção, mas de quem coleciona histórias para contar nas caravanas.
— Dizem lá pelas bandas de Jerusalém, começou o sírio, que o senhor governou na época de um acontecimento singular, a morte de um homem que, por falta de melhor título ou excesso de convicção, dizia ser o próprio filho de Deus.
Pilatos suspendeu a mão a meio caminho da boca, as sobrancelhas franzidas num esforço de busca que parecia quase doloroso. Bebeu um pouco de vinho, não por sede, mas para ganhar tempo.
— Sim, recordo-me da confusão, respondeu Pilatos com uma voz que saía gasta, como se as palavras tivessem sido mastigadas pela indiferença. Houve um homem, ou talvez vários, naquele tempo os profetas nasciam como cogumelos depois da chuva, e todos traziam o céu debaixo do braço para resolverem as pequenas querelas da terra. Esse de quem falas, sim, lembro-me da cruz, lembro-me da insistência dos rabinos que gritavam nos meus ouvidos como se o mundo dependesse de uma sentença, e eu, que tinha o imperador de Roma a cobrar-me ordem e impostos, não vi outra saída senão dar-lhes o que queriam para poder almoçar em paz.
— E como se chamava ele? perguntou o sírio, inclinando o corpo para a frente, à espera do nome que, segundo diziam, faria tremer os impérios.
Pilatos olhou para as próprias mãos. Eram mãos velhas, manchadas pela idade, mas estranhamente limpas, de uma brancura que parecia não pertencer ao resto do corpo. Esfregou-as uma na outra, um gesto reflexo que o tempo não conseguira apagar.
— O nome, dizes tu? O nome escapou-me pelas frestas do esquecimento. Já tentei buscá-lo, por vezes à noite, quando o silêncio é maior que a consciência, mas o que resta é apenas o vulto de um homem que não se defendia, uma sombra mansa diante do meu tribunal. Do que me lembro bem, com uma clareza que até me espanta, é da água.
— Da água, senhor? estranhou o mercador.
— Sim, da água na bacia. Lembro-me da sensação fresca nas palmas, do sabão que levava o pó daquela província maldita, e do alívio que senti ao secar os dedos na toalha de linho. Lavei as mãos com tal esmero que parecia querer apagar não o crime, mas a própria existência do réu. Executei-o em nome de Roma, para satisfazer os rabinos e manter a harmonia das leis, mas o nome dele, meu caro amigo, esse foi-se com a água da lavagem. E Pilatos, dando de ombros com uma tranquilidade terrível, voltou a sua atenção para a azeitona que restava no prato, enquanto o sírio, mudo de espanto, compreendia que a maior tragédia da história não era a morte de um deus, mas o facto de o seu carrasco não ter sequer guardado o seu nome na memória, ocupado que estava em manter as mãos impecavelmente limpas.
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