Morris morava no interior de São Paulo,
numa rua onde as casas
sabiam o nome umas das outras.
A igreja ficava a três quadras,
branca demais para o sol das quatro.
Ele parou de ir.
Não houve anúncio.
Foi como quando se deixa
uma xícara lascada no fundo do armário
— ainda serve, mas não agora.
Aos domingos,
ouvia o sino de longe,
contava as badaladas
como quem confere a hora
sem intenção de chegar.
Dizia: sou católico,
com a naturalidade
de quem diz o nome da cidade natal.
Não discutia dogmas,
não negava milagres.
A fé ficara espalhada:
num terço esquecido na gaveta,
no cheiro de vela em velório,
na palavra amém
dita em voz baixa, sem plateia.
Morris acreditava em Deus
como se acredita no tempo:
não se vê,
mas organiza o dia.
E assim vivia —
sem altar,
sem ruptura,
sem se afastar da fé.
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