Havia um menino de riso emprestado,
com olhos de chuva e sapato amarrado.
Ganhou uma bike vermelha, brilhante,
mas pedalava parado, pra trás, hesitante.
Ganhou uma namorada de fita no cabelo,
beijava a bochecha, mas nunca o zelo.
Ela dizia “te amo”, com açúcar e flor,
e ele respondia com um suspiro sem cor.
Tinha amigos aos montes, um bando animado,
rindo tão alto que o céu ficava acordado.
Mas o menino, coitado, no meio da festa,
procurava tristeza — e sempre a encontrava depressa.
“Por que choras?”, perguntava o gato da rua,
equilibrado num poste, falando com a lua.
“Não sei”, disse o menino, torcendo o cadarço,
“acho que meu coração nasceu fora do traço.”
Ganhou bolo, presentes, aplausos e sol,
mas preferia a sombra, o cinza, o farol.
Pois há quem tenha o mundo servindo no prato,
e ainda assim sinta um vazio exato.
E assim vai o menino, de canto em cantinho,
com tudo no bolso — menos um caminho.
Rindo por fora, por dentro ao avesso,
triste não por falta,
mas por excesso.
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