Ele surge na beira da estrada
com o polegar erguido
e um sorriso torto
costurado pela lua.
Usa um casaco grande demais,
cheira a poeira, ferrugem e sonho ruim.
Os caminhoneiros diminuem a marcha —
ninguém sabe por quê.
Sempre param.
Dentro da cabine,
ele fala pouco.
Ri quando não deve.
Conta histórias de cidades
que não existem mais
e de pessoas que nunca chegaram ao destino.
À meia-noite exata
seus olhos mudam de lugar,
escorrem para dentro da sombra,
e o rádio começa a sussurrar
nomes esquecidos.
Os dentes crescem como pregos,
as mãos viram fumaça,
e o homem vira outra coisa:
um demônio feito de estrada,
óleo queimado
e solidão.
Não há gritos.
Só um silêncio engolido
pelo ronco do motor.
Quando o dia nasce,
o caminhão está vazio,
estacionado em qualquer acostamento.
Dizem que ele não mata.
Ele apaga.
Faz as vítimas desaparecerem
como sonhos ao acordar tarde demais.
À noite seguinte,
lá está ele de novo,
polegar erguido,
educado,
paciente.
Esperando carona
para existir
mais uma vez.
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