Era uma manhã qualquer, dessas em que o sol parece duvidar de si mesmo antes de se entregar por inteiro, e Blim, o pintor, acordou com a sensação de que sua vida até então não passara de um equívoco, pois todo o esforço que empregara em reproduzir rostos, árvores, cavalos e casas não era senão um reflexo mal ensaiado daquilo que já estava no mundo, como se ele fosse um escriba do visível e não um criador, e esse peso lhe caiu no peito como uma pedra que se desprende do alto e encontra um corpo distraído lá embaixo.
Levantou-se com pressa, quase tropeçando na própria sombra, e ao olhar para as telas encostadas contra a parede do ateliê viu-se como diante de um cemitério particular, cada quadro um túmulo de intenções fracassadas, retratos que não falavam, paisagens que não respiravam, e então percebeu que havia passado anos a fio pedindo licença à realidade para poder pintá-la, quando a pintura, se fosse verdadeira, não deveria pedir licença a nada nem a ninguém.
Pegou uma faca e, sem pensar muito, riscou sobre um desses retratos um traço grosso, um corte oblíquo que atravessou o rosto de uma mulher até então imóvel e silenciosa, e no gesto havia mais verdade que em todos os anos de sua carreira, pois o corte não buscava agradar, tampouco imitar, era apenas um grito transformado em linha, uma fenda aberta na pele da tela por onde se escoava sua angústia.
Foi nesse instante que Blim sentiu que poderia libertar-se, e libertar-se significava romper de uma vez com a figuração, abolir a escravidão do parecido, e começar a fazer da tela um espaço de puro assombro, onde cores e formas não representassem nada que se pudesse nomear, apenas sugerissem o que não tem nome, ou mesmo o que não precisa dele, porque existe sem a necessidade de ser traduzido.
Os dias seguintes foram de frenesi, o pintor deixava de comer, mal dormia, sujava o chão com respingos, derramava tintas como quem derrama sangue ou vinho, e ria sozinho diante das manchas que se formavam, manchas que não lembravam pássaros nem flores nem montanhas, mas talvez lembrassem o sonho de um pássaro antes de nascer, ou o silêncio de uma flor depois de morrer, e era esse território de indefinição que mais lhe interessava.
Vieram amigos, conhecidos, compradores antigos, todos olhando com perplexidade para os quadros recentes, alguns perguntavam o que aquilo queria dizer, e Blim respondia que não queria dizer nada, queria apenas ser, como a chuva que cai ou a pedra que rola, e muitos não entendiam, porque estavam acostumados a decifrar, a converter imagens em palavras, como se tudo precisasse de tradução para existir.
Pouco a pouco, os visitantes rarearam, os telefonemas cessaram, os convites para exposições minguaram, e Blim sentiu um alívio secreto, pois cada ausência era uma prova de que estava no caminho certo, já não era refém do olhar alheio, já não pintava para satisfazer a fome de mercado ou de crítica, pintava para satisfazer a fome de si mesmo, e essa fome era insaciável, mas também era sua salvação.
Houve noites em que duvidou, em que se perguntou se não estaria condenando sua obra ao esquecimento, se não acabaria enterrado debaixo de telas que ninguém compraria, mas logo lembrava que a memória dos outros não era sua responsabilidade, que sua única tarefa era permanecer fiel àquilo que lhe queimava por dentro, e quando retomava o pincel a dúvida se dissipava como neblina diante de sol forte.
Os vizinhos diziam que ele estava enlouquecendo, porque passava horas encarando um único ponto da tela, como se quisesse atravessá-lo, e talvez fosse mesmo loucura, mas uma loucura luminosa, que lhe dava mais sentido do que toda a sobriedade de antes, e se a arte não é também uma forma de delírio, pensava, então não passa de ofício burocrático, e não fora para isso que nascera.
Certo dia, alguém lhe perguntou se não sentia falta do público, e Blim respondeu que o público estava dentro dele, uma multidão de vozes invisíveis que se agitava cada vez que a tinta encontrava o pano, e essa multidão bastava, não precisava de aplausos nem de vendas, bastava-lhe a vibração íntima de ter tocado algo que nunca seria explicado mas que, ainda assim, existia com mais verdade do que qualquer retrato.
Com o passar dos anos, acumulou dezenas de telas abstratas, que cobriam quase todas as paredes do ateliê, e havia ali uma floresta de cores, um oceano de formas que não pertenciam a nenhum dicionário, um universo paralelo que só ele conhecia por inteiro, e se alguém entrasse nesse espaço talvez se perdesse, mas para ele cada mancha era um mapa secreto de si mesmo.
Nunca mais voltou a pintar um rosto, uma árvore, um cavalo, nunca mais quis a servidão da semelhança, e se às vezes sonhava com figuras humanas eram figuras dissolvidas, fragmentadas, como se o próprio sonho já tivesse aprendido a não exigir do pintor aquilo que ele não podia mais dar, e havia paz nisso, uma paz conquistada depois da tempestade.
E assim viveu e assim morreu, rodeado de telas que poucos compreende
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