domingo, 1 de junho de 2025

Quem sou eu, se não sou o outro?


Quem sou eu,
senão o eco de uma voz que nunca foi minha?
Este vulto que habito,
feito de gestos que copiei da vida,
de palavras que roubei aos livros,
de pensamentos que vieram de fora?

Dizem-me que sou eu.
Mas eu não me encontro em parte alguma.
Sou uma lembrança vaga de alguém que imaginei ser,
um reflexo infiel num espelho embaçado
onde o outro — sempre o outro — me encara.

Às vezes sou um homem cansado,
às vezes sou um sonho de homem,
às vezes não sou nada —
e esse nada pesa mais que o mundo.

Quem sou eu, se não sou o outro?
E quem é o outro,
senão a ideia que faço de mim?

Tudo em mim é duplicado,
triplicado, falsificado —
tenho rostos que nunca vi,
e uma alma que me olha de fora.

Talvez sejamos todos enganos uns dos outros,
fantasmas que se cumprimentam nas ruas
com nomes que esquecem ao anoitecer.

Ah, se ao menos ser ninguém
fosse uma forma de descanso.
Mas até o vazio tem vozes
que me chamam de dentro.

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