Cubismo Interior
Vejo em planos.
O mundo não é redondo —
É um caco de vidro refletido em outro,
um espelho que pensa que é janela.
A maçã não é uma maçã:
é o conceito da maçã partido ao meio,
exibido em dois ângulos simultâneos,
como se o tempo fosse feito de espaço.
Ah, que náusea moderna de ver com os olhos!
Prefiro a geometria da alma,
os triângulos que há num gesto
e o retângulo de angústia
com que a boca se curva.
A arte não imita: analisa.
Desconstrói o instante para que dure,
como um relógio de areia
partido em mil ampulhetas.
Cubismo —
essa lucidez de ver demais
e por isso não ver nada.
Esse amor impiedoso pela forma
que esquece a ternura do contorno.
Sou cubista da existência:
vivo-me em facetas,
em planos sobrepostos,
num autorretrato que nunca termina
porque sou todos os ângulos de mim mesmo.
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