domingo, 1 de junho de 2025

Ode ao Orifício Final

 Ode ao Orifício Final

(sem vergonha)

Oh cu, tão vilipendiado e tão real,
És centro oculto da carne e do destino,
Mudo clarão do abismo intestinal,
Negra flor no jardim do peregrino.

Por ti se faz o trono do repouso,
E o trono do excremento — rei e lama.
És mais sincero que o verbo pomposo,
Mais verdadeiro que a metafísica flama.

Que importa ao mundo a tua escuridão?
A alma é também um poço, um buraco.
E o ser, que crê pensar com a razão,
Tem-te no fundo, íntimo oráculo.

Não és apenas vulgaridade ou gozo,
És símbolo do que se quer negar —
O fim do alimento, o não-ditoso,
A porta por onde tudo vai passar.

Oh cu, matéria pura do concreto,
Por ti passamos todos, sem saber.
Ninguém te louva — és sempre um objeto,
Mas vives onde começa o ser.

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