Ode ao Orifício Final
(sem vergonha)
Oh cu, tão vilipendiado e tão real,
És centro oculto da carne e do destino,
Mudo clarão do abismo intestinal,
Negra flor no jardim do peregrino.
Por ti se faz o trono do repouso,
E o trono do excremento — rei e lama.
És mais sincero que o verbo pomposo,
Mais verdadeiro que a metafísica flama.
Que importa ao mundo a tua escuridão?
A alma é também um poço, um buraco.
E o ser, que crê pensar com a razão,
Tem-te no fundo, íntimo oráculo.
Não és apenas vulgaridade ou gozo,
És símbolo do que se quer negar —
O fim do alimento, o não-ditoso,
A porta por onde tudo vai passar.
Oh cu, matéria pura do concreto,
Por ti passamos todos, sem saber.
Ninguém te louva — és sempre um objeto,
Mas vives onde começa o ser.
Nenhum comentário:
Postar um comentário