O Testamento de Quaderna, o Preso Rei
para Ariano Suassuna, com carinho e devoção
Aqui quem fala é Quaderna,
Rei do Brasil Encantado,
Preso sem culpa nenhuma,
Mas com o trono assegurado.
Pois meu sangue é de coroa
De rei mouro e degolado!
Sou neto de Dom Sebastião,
Cavaleiro encantado!
O povo diz que sou doido,
Que sou poeta e pateta,
Mas doido é quem vê só grades
E não vê luz na caneta.
Minha cela é um palácio
Com alma de clarabeta,
Pois quem nasce pra ser rei
É rei mesmo sem baqueta.
Não tenho ouro, nem trono,
Nem coroa reluzente,
Mas carrego no meu peito
Um brasão incandescente.
Minha espada é a palavra,
Meu cavalo é a mente,
E o Império que governo
É sonhado e resistente.
Ai, Taperoá querida,
Solo santo do sertão,
Onde a Pedra do meu Reino
Brota do chão feito pão.
Tudo que eu quero na vida
É rever teu coração,
Beijar teu chão de poeira
E morrer como um cristão.
Diz o juiz sem poesia
Que meu crime é invenção.
Mas se é crime ser poeta,
Sou bandido do Sertão.
Matei com rima rimada,
Roubei com imaginação,
E fui cúmplice de anjos
Num assalto de oração.
Meu trono é uma rede velha,
Meu cetro, um cabo de vassoura,
Minha corte são os caboclos
Que tocam rabeca à toa.
Mas se um dia eu for à Pedra,
Num cavalo de canoa,
Juro abdicar do mundo
E morrer em Taperoá!
Quaderna sou, Quaderna fui,
E Quaderna serei cantando.
Mesmo preso, sou mais livre
Que rei louco governando.
Pois quem sonha com estrelas
Mesmo em barro vai reinando,
E quem ama sua terra
Morre rindo e abençoando.
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