O Fauno Desencantado
Ó tu, que ao som do pífaro sombrio
cresceste entre a hera e os louros fiéis,
fauno, de olhar pesado e pés cruéis
ao mármore estagnado do idílico estio,
deixaste o bosque, o orvalho, o alheio frio,
pra ver se o homem largou seus papéis;
mas viste a urbe, os vícios, bordéis,
vidros sem alma e ouro sem brio.
Ali não canta o sagrado rouxinol,
nem nasce o lírio entre cinzas vãs —
mas gritam ferros nus, sem sol.
Erguiste os olhos — e as estrelas sãs
eram néon, e o céu, um arrebol
de gases, gritos, chagas urbanas.
Voltaste ao monte, com olhar de luto,
os cornos baixos, muda a tua flauta,
cobriste a pele — trêmula, tão alta —
com musgo antigo e silêncio absoluto.
“Feliz a sombra,” disseste, “que me vela,
mais do que a luz dos homens e seus risos;
aqui, o silêncio canta — e, nos abismos,
menos monstro é a fera do que a sentinela.”
Dormiste, pois, cem eras, se puderes,
no fundo escuro onde o tempo se afunda,
pois mais gentil é fera que se esconda
do que o homem em torres e tramas severas.
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