Ele a conheceu numa tarde de calor indecente no Rio, quando o sol batia nos azulejos como se quisesse arrancar confessionários dos muros. Ela dançava sem música, com um copo de suco na mão e os olhos meio fechados, como se flertasse com a vida ou estivesse zombando dela. Ele era judeu sefardita, criado com alho, tradição e culpa. O nome dela era Linca. Parecia nome de fruta ou personagem de novela. Ele achou lindo. E perigoso.
Chamava-se David, com "d" manso, como seu avô dizia. O avô tinha vindo de Izmir, e ainda falava com sotaque de areia quente e salmo engasgado. A mãe de David tinha olhos de julgamento e um jeito de servir sopa como quem dá sentença. Ela dizia que o mundo era redondo pra gente voltar pro lar. David, porém, gostava de andar reto, mesmo tropeçando.
No terceiro encontro, Linca perguntou se ele acreditava em Deus ou só fingia pra não ser deserdado. Ele riu. Disse que Deus existia, mas só porque ninguém conseguiu matá-lo direito. Ela achou a resposta terrível, e beijou ele logo depois. Era isso que ela fazia: achava tudo terrível e, ainda assim, ficava. Como se fosse especialista em amor trincado.
Quando contou à família, a reação foi o que se esperava de uma família que ainda achava que música com tambor era coisa de pagão. A mãe disse que ela era “bonita, sim, mas muito... tropical.” O pai não falou nada, mas comeu dois pães de azeite e limpou a testa com o guardanapo nove vezes. A tia Ester sugeriu que ele viajasse por um tempo, como se Linca fosse uma gripe com passagem só de ida.
David não discutiu. Sabia que a tradição não se enfrenta com briga, mas com tempo. Continuou vendo Linca, que agora usava sua camiseta velha e dormia de lado, como quem evita virar passado. Ela cozinhava bem, ria alto e dizia que o mundo era feio, mas era o único que a gente tinha. Isso deixava David em paz. Ou, pelo menos, menos em guerra.
No Yom Kipur, Linca apareceu de vestido discreto e olhos ainda mais abertos. A mãe de David a olhou como se avaliasse uma pintura moderna: não entendeu, mas também não odiou. O avô, já meio cansado da vida, segurou a mão dela e disse: “Você tem olhos de mulher que não vai embora.” Linca respondeu: “Nem que me mandem.”
Depois disso, foi mais fácil. A tradição, tão cheia de muralhas, começou a virar varanda. A mãe ensinou a ela como enrolar folhas de uva e até reclamou que Linca fazia melhor. O pai passou a rir nas refeições, o que era quase um milagre sefardita. A tia Ester perguntou se Linca queria aprender ladino. Linca disse que não, mas que adorava ouvir.
Eles casaram sem pompa, sem rabino ortodoxo, sem vestido branco. Casaram numa sexta-feira chuvosa, com um violão desafinado e muito arroz no chão. Não pediram bênção, mas também não pediram desculpas. David fez um discurso curto, como era de seu feitio. Disse: “Ela me ensinou que tradição boa é a que cabe mais um prato na mesa.” A mãe chorou baixinho, fingindo alergia ao vinho.
Agora vivem numa casa com cheiro de cebola frita, incenso barato e livros por todo lado. Ele ainda reza às vezes, ela ainda dança sem música. Nenhum dos dois virou o outro. Apenas deixaram de ser sozinhos. E quando brigam, brigam bonito: com pausas, respeito e algum riso. Porque o amor, quando é bom, parece meio irlandês — bebe de tudo, sobrevive a muita coisa e termina cantando, mesmo com dor nos ossos.
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