domingo, 6 de setembro de 2026

Pode esperar - conto

     O garoto ruivo, sardas no nariz e o pescoço compridão, subiu a escada do cortiço na Rua Treze de Maio com o coração batendo na garganta. Ela abriu a porta de pijama de cetim rasgado, o corpo retinto brilhando de suor no calor abafado de Campinas.

— Entra, cenourinha. Não repara a bagunça.

        A travesti tirou o pijama ali mesmo, nua da cabeça aos pés, uma estátua de ébano e carne firme no meio do quarto mofado. Cheirava a sabonete baratinho e jasmim de quintal. O rapaz engoliu em seco, as mãos trêmulas desabotoando a calça jeans desbotada. Ela deitou na cama de armação de ferro, abriu as pernas grossas e puxou ele pelo braço, a voz rouca e direta:

— Deixa de frescura e enfia tudo. Sem pressa, mas com vontade.

        Ele obedeceu, tonto com o cheiro e com o abafado da noite. Foi um tranco seco, o corpo dela arqueando, unhas compridas cravando nas costas brancas dele, arranhando a pele até arder. O quarto virou um estrondo de molas velhas e respirações cortadas. Ela ganiu um palavrão grosso no auge, o corpo convulsionando num gozo violento que apertou ele por dentro. O ruivo perdeu o prumo logo em seguida, desabando sobre o peito dela num suspiro longo.

        Ficaram deitados ali no colchão sem lençol, o ventilador barulhento jogando bafo quente. Ela afagou o cabelo cor de fogo dele com carinho de mãe brava.

— Você volta semana que vem? — perguntou ela, o sorriso branco cortando o rosto escuro.

    O rapaz levantou o queixo, ajeitou a calça e sorriu de volta, os olhos brilhando no escuro.

— Volto sim. Pode esperar.

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