Em uma noite úmida de 1912, às margens do arroio Ibicuí, Joaquim da Silva estancou o sangue nas mãos. A faca de cabo de osso repousava no capim, pesada de um destino irrevogável. Um homem jazia mudo a seus pés, vítima de uma discussão estéril sobre rumos de cercas e soberba. Joaquim não sentiu remorso, apenas o terror frio da lei. Naquela mesma madrugada, cruzou a fronteira a cavalo, deixando para trás o pampa infinito, os redomões e o próprio nome.
Na Argentina, o gaúcho fugitivo morreu aos poucos. Nasceu em seu lugar um homem de óculos fundos e passos cautelosos que se perdeu nas ruas labirínticas de Buenos Aires. Habitando um cortiço sombrio na rua Florida, Joaquim — agora chamado de Efraín de los Santos — descobriu as livrarias de sebos e, nelas, a vertigem dos livros sagrados.
A princípio, aproximou-se da Cabala por desespero: buscava uma cifra para decifrar o perdão divino ou, ao menos, a geometria de sua culpa. Passava os dias lendo traduções latinas do Zohar, tomos poloneses e comentários obscuros sobre as Sephiroth. Com o tempo, o antigo peão de lida esqueceu o cheiro de graxa e cavalo; suas mãos, antes calejadas pelo laço, amaciaram-se manuseando páginas ancestrais. A tese que urdiu no silêncio de seu quarto era vertiginosa e herética: para ele, o universo não era obra de um Deus benevolente, mas sim o anagrama imperfeito de um crime cósmico. Cada letra hebraica era uma cicatriz; cada versículo da Torá, um disfarce para ocultar o sangue derramado no princípio dos tempos. Em 1934, publicou privadamente um único exemplar de sua obra máxima: A Geometria do Caim.
Efraín faleceu em 1948, cego e esquecido, numa penumbra que muito se assemelhava à eternidade que tanto estudara. O destino, contudo, é irônico e gosta de espelhos. Décadas mais tarde, um jovem crítico literário de Oxford, em visita a um sebo na calle Corrientes, tropeçou no volume de capa cinzenta de A Geometria do Caim. Fascinado pela prosa gélida e pela audácia metafísica do autor — que parecia antecipar Borges e Kafka com um sotaque rústico —, traduziu-o para o inglês sob o título The Caim Cipher. O livro explodiu no mundo saxão. Críticos em Nova York e Londres debateram a exaustão se Efraín de los Santos havia sido um rabino secreto, um místico louco ou um pseudônimo coletivo. Universidades criaram cátedras para estudar sua teologia invertida.
Ninguém jamais soube que aquele labirinto de conceitos abstratos, cifras cabalísticas e anjos de fogo não passava do eco desesperado de um gaúcho gaúcho fugindo da justiça dos homens, tentando transformar o sangue de um crime banal na tinta imortal de um segredo divino.
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