o que se passou naquela tarde de domingo não foi uma conversa de namorados como as que se ouvem nos bancos de jardim entre um beijo e uma promessa de fidelidade eterna porque júlia e rodolfo tinham essa mania de carregar o mundo às costas e niterói por mais que fosse bela não bastava para conter a tempestade que se armava entre os dois não senhor rodolfo olhou para o café já frio e disse que a vida era uma repetição sem fim um círculo que se morde e se consome e que se o tal do demônio aparecesse de noite a perguntar se ele queria viver tudo outra vez exatamente igual com as mesmas dores e as mesmas alegrias ele rodolfo diria que sim mas júlia que tinha os olhos postos num ponto invisível do horizonte interrompeu o raciocínio sem pedir licença nem usar vírgulas que o pensamento não se detém por formalidades gramaticais meu querido rodolfo tu falas do eterno retorno como se fosse uma escolha de menu num restaurante de luxo mas esqueces que o amor fati não é aceitar a tua vidinha de classe média com o teu escritório e o teu automóvel é amar o destino até nas vísceras da tragédia e eu pergunto-me se terias estômago para amar a tua própria ruína se ela te batesse à porta amanhã e ele respondeu que sim que era o além-do-homem ou pelo menos o projeto de um e júlia soltou um riso curto que parecia um estalido de ramos secos tu és apenas um humano demasiado humano rodolfo queres o super-homem mas não suportas a solidão de uma tarde sem me ligares queres a morte de deus mas procuras um sentido em cada esquina como se o cosmos tivesse a obrigação de te explicar o porquê de estarmos aqui sentados a fingir que percebemos o que o velho friedrich escreveu enquanto enlouquecia em turim e rodolfo ofendido porque o orgulho masculino é uma criatura sensível e de vidro disse que a vontade de poder era o que o movia mas júlia pôs a mão sobre a dele e a pele dela era o único absoluto naquele momento o problema é que passas tanto tempo a olhar para o abismo que te esqueces de olhar para mim e o abismo rodolfo não te vai fazer o jantar nem te vai dar um abraço quando a angústia apertar nitzsche era um solitário que gritava para as montanhas e nós somos dois tontos a gritar um com o outro num domingo de sol se deus morreu não foi para que o substituísses por um bigode filosófico mas para que fosses capaz de criar a tua própria luz e a minha luz agora é ir embora porque o eterno retorno deste teu mau humor já me cansa os pés e assim se levantaram deixando na mesa o rastro da discussão e o eco de uma filosofia que como todas as outras serve para muito pouco quando o que se quer na verdade é apenas saber se ainda se ama alguém no meio do caos de um universo que não nos ouve nem nos entende.
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