O sol de dezembro castigava o lombo da terra roxa, fazendo a poeira levantar em redemoinhos preguiçosos na chegada à Vila de Santa Cruz. Estácio, jovem de ideias arejadas pelos ventos da capital, desceu da diligência limpando o paletó de linho. Trazia na mala livros de sociologia e no peito uma curiosidade inquieta pelo "interiorzão".
Logo na entrada, a paisagem se dividia como se riscada a canivete.
De um lado, o Morro do Café. Ali, as casas ostentavam frentes de alvenaria, janelões de guilhotina e jardins onde o buxinho era aparado com régua. Nas varandas, brancos de bigodes circunspectos fumavam charutos, enquanto senhoras de pele pálida balançavam leques, protegidas da canícula pelas sombras das mangueiras centenárias. O tilintar de louça fina era o som daquela casta que o café — o ouro negro — havia coroado.
Do outro lado, atravessando o córrego que servia de esgoto e lavanderia, o Arraial de Baixo.
Ali, a cor mudava drasticamente. Eram os negros. Livres por lei, mas escravos da circunstância. Moravam em casebres de pau-a-pique, onde a lama seca parecia pedir licença para não desabar. Crianças de barriga crescida e pés no chão corriam atrás de vira-latas, enquanto mulheres de ombros curvados carregavam trouxas de roupa que pesavam mais que o próprio destino.
Estácio parou diante da venda do Seu Nonô, um sujeito de pele cor de pergumento e olhos espertos.
— Diga-me uma coisa, Seu Nonô — começou o jovem, apontando para o abismo social que separava os dois bairros. — Por que essa gente vive assim, no farelo, enquanto lá em cima a nata nada no leite? Abolimos a escravidão há décadas, não?
O velho Nonô deu uma tragada no cigarro de palha, soltando a fumaça com a lentidão de quem já viu muitas estações.
— Ah, o moço é dos "estudados", né? Pois olhe bem. A lei assinou o papel, mas não assinou o coração das terras. Lá em cima, o branco herdou a fazenda, o nome e o crédito no banco. Aqui embaixo, o negro herdou a liberdade de passar fome sem o chicote nas costas. A liberdade deles é como um pássaro que soltaram da gaiola, mas cortaram as asas antes.
Estácio sentiu um aperto no peito. Viu um velho negro, de barbas brancas como o algodão, sentado num toco de madeira. O homem tinha as mãos calejadas, transformadas em garras pelo trabalho bruto na lavoura que nunca foi sua.
— É um absurdo geográfico — murmurou Estácio para si mesmo. — A cidade é um tabuleiro de xadrez onde as peças pretas só servem para serem comidas pelas brancas.
— É a "ordem natural", dizem os doutores de lá — atalhou Nonô, com um pingo de sarcasmo. — Dizem que é falta de brio. Mas eu queria ver o filho do Coronel erguer aquele bairro do nada, começando com a mão vazia e o estômago roncando.
Estácio caminhou pela rua poeirenta, sentindo que o progresso do Brasil, tão decantado nos jornais da capital, era um edifício luxuoso construído sobre um pântano de injustiças. Ali, em Santa Cruz, o tempo parecia ter parado para manter o privilégio de uns e o sacrifício de muitos, como se a cor da pele ainda fosse o limite invisível entre o ser humano e a ferramenta de trabalho.
O jovem suspirou. Sabia que, enquanto o Morro não olhasse para o Arraial com olhos de irmão, o Brasil continuaria sendo essa "Vila de Santa Cruz": uma pátria grande, mas com a alma dividida pelo muro invisível do preconceito.
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