domingo, 1 de março de 2026

O Retorno do Casco Solitário


Sob o pálio de prata, onde o céu se desfaz,

Caminha o fauno, em passos de paz.

Onde o carvalho se curva, de neve vestido,

O som de seus cascos é um sopro esquecido.

     Click-clack, no gelo, o segredo se encerra,

     Um filho de Pãn nesta branca terra.


O vento é uma flauta que sopra cruel,

Transformando o bosque em um frio quartel,

Mas sob os chifres e a fronte cansada,

Mora uma chama, por nada apagada:

     O sonho de um bule, de um pão sobre a mesa,

     Longe do inverno e sua muda aspereza.


Ele vê, entre as árvores, a porta de carvalho,

Sua toca escondida, seu doce agasalho.

Lá, o tapete espera, o canapé convida,

E a estante de livros é a sua medida.

     Ah, o cheiro do couro e do chá matinal,

     Onde o mito descansa do frio invernal!


Já sente o calor que a lareira emana,

Que doura o lombo de uma obra antiga e humana.

Enrolado em manta, com o fogo a estalar,

O fauno enfim deixa o mundo esperar.

     Pois não há silêncio, por mais absoluto,

     Que vença o conforto de um sonho soluto.

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