Sob o pálio de prata, onde o céu se desfaz,
Caminha o fauno, em passos de paz.
Onde o carvalho se curva, de neve vestido,
O som de seus cascos é um sopro esquecido.
Click-clack, no gelo, o segredo se encerra,
Um filho de Pãn nesta branca terra.
O vento é uma flauta que sopra cruel,
Transformando o bosque em um frio quartel,
Mas sob os chifres e a fronte cansada,
Mora uma chama, por nada apagada:
O sonho de um bule, de um pão sobre a mesa,
Longe do inverno e sua muda aspereza.
Ele vê, entre as árvores, a porta de carvalho,
Sua toca escondida, seu doce agasalho.
Lá, o tapete espera, o canapé convida,
E a estante de livros é a sua medida.
Ah, o cheiro do couro e do chá matinal,
Onde o mito descansa do frio invernal!
Já sente o calor que a lareira emana,
Que doura o lombo de uma obra antiga e humana.
Enrolado em manta, com o fogo a estalar,
O fauno enfim deixa o mundo esperar.
Pois não há silêncio, por mais absoluto,
Que vença o conforto de um sonho soluto.
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