CONTOS QUE A NEVE
NÃO ENTERROU
GABRIEL DE ATAIDE DE MELO
A Anja Caída
Dedido para Mo Yan e
Kenzaburo Oe, mestres do Oriente
O cheiro
não era de glória, mas de intestino furado e sorgo podre fermentando sob o sol
impiedoso de Gaomi. Shigeru, cujas mãos ainda tinham a maciez da infância órfã
nos templos de Kyoto, segurava o fuzil Arisaka como se fosse uma cruz profana.
Ele não queria estar ali. Ele queria o silêncio dos sutras, não o tcheco-tcheco
metralhado das rãs nos pântanos de sangue, que pareciam zombar dos gritos dos
moribundos. A guerra era um estômago gigante que devorava homens e cuspia
fantasmas.
Sua
unidade avançava pelas plantações de sorgo, que se erguiam como paredes de um
labirinto escarlate. Foi quando ele a viu.
Ela
estava sentada sobre um monte de corpos chineses retorcidos, com a naturalidade
de quem descansa em um jardim de peônias. Era a mulher mais linda que Shigeru
já vira, uma visão de porcelana em meio ao barro. Seus cabelos eram negros como
o nanquim fúnebre, e sua pele brilhava com uma palidez lunar. Mas quando ela
sorriu, Shigeru viu que seus dentes eram afiados como agulhas de costurar
couro, e atrás dela, misturando-se com a fumaça das vilas queimadas, pairavam
asas. Não asas de penas, suaves e brancas, mas membranas coriáceas, negras e
úmidas, como as de um morcego gigante destilando o luto do mundo.
— Shigeru
— a voz dela era o zumbido de mil moscas varejeiras varejando um cadáver doce.
— Você parou. Por que parou?
Shigeru
tremia. O medo paralisava suas pernas, fazendo o suor frio escorrer pelas
costas como vermes. — Quem é você? Uma Anja?
— Eu sou
o que você precisa que eu seja, pequeno soldado. Eu sou a justiça do Imperador.
Eu sou a fome do aço — ela desceu do monte de mortos com uma graça
sobrenatural. Suas unhas eram garras longas, pintadas com o sangue seco dos
camponeses. Ela tocou o peito de Shigeru, e ele sentiu o calor de uma fornalha.
— Você deve matar, Shigeru. Matar sem piedade. Corte as gargantas deles como se
fossem talos de sorgo. Beba o sangue deles para que sua própria fraqueza
desapareça. Cada chinês que você poupa é uma traição à sua existência.
Shigeru
olhou para o fuzil, depois para as plantações, onde os gritos dos civis ainda
ecoavam. A doutrina da paz que os monges lhe ensinaram lutava contra o terror
ancestral que a demônia emanava.
— Não...
— Shigeru gaguejou, a voz falhando. — Isso é contra... isso é contra as leis da
paz. O buda ensina a compaixão. Eles são homens, como eu. Têm mães, têm fome.
Eu não posso...
O rosto
da Anja Caída transfigurou-se. A beleza de porcelana rachou, revelando uma
mandíbula que se alongava, cheia de dentes múltiplos, e olhos que se tornaram
fendas verticais amarelas. O cheiro de peônias foi substituído pelo fedor
insuportável de enxofre e decomposição avançada.
— Paz?
— Ela rugiu, e o som fez as folhas de sorgo tremerem. — A paz é uma mentira
para os fracos! O mundo é dor e conquista! Se você não devora, você é devorado!
Com um
grito que rasgou o ar, ela saltou sobre ele. Suas garras buscaram os olhos de
Shigeru. Ele agiu por puro instinto animal, o fuzil subindo não como uma arma
de paz, mas como um porrete de desespero. A baioneta calada penetrou a membrana
da asa direita da demônia, que soltou um uivo de agonia que soou como metal
rangendo contra metal.
Eles
rolaram no barro infestado de sangue. Ela mordia e arranhava, sua pele
queimando a dele como ácido. Shigeru, em um transe de terror e fúria
sobrevivente, agarrou uma pedra pesada e pontuda no chão e golpeou-a
repetidamente na cabeça, no lugar onde a beleza costumava estar. O sangue que
jorrava dela era preto e fedia a óleo queimado. Ele golpeou até que as asas
coriáceas pararam de debater, até que o corpo dela se dissolveu em uma poça de
piche borbulhante que a terra do sorgo recusava absorver.
Shigeru,
exausto e coberto daquele piche imundo, olhou para o céu. O sol de Gaomi estava
se pondo, vermelho como o inferno. Ele sentiu o mundo girar, a realidade se
desfazendo como papel molhado.
Ele
acordou com o som não de tiros, mas de tossidas secas e o gotejar rítmico de
algum líquido. O teto não era feito de folhas de sorgo, mas de gesso descascado
e vigas de madeira carbonizada. O cheiro não era de enxofre, mas de iodo, urina
velha e ferrugem.
Shigeru
tentou se mover, mas seu corpo pesava como chumbo. Ele estava deitado em uma
cama de ferro rangendo, em um hospital em ruínas. Pela janela sem vidro, ele
viu, em vez das planícies chinesas, uma paisagem de cinzas e esqueletos de
prédios. Era o Japão. Estava em casa, mas a casa estava morta.
Uma
enfermeira com o rosto coberto por uma máscara de pano suja aproximou-se, seus
olhos cansados mal olhando para ele. Ela tocou sua testa e retirou a mão
rapidamente, como se tivesse tocado em brasa.
— Ele
está ardendo de febre — ela murmurou para ninguém em particular, injetando algo
no braço dele com uma agulha cega. — Alucinando de novo. Falando sobre anjos e sorgo.
Shigeru
fechou os olhos, a febre subindo como uma maré negra, trazendo de volta o
cheiro de enxofre e o sorriso de dentes de agulha. Ele percebeu, com uma
clareza terrível, que a demônia nunca tinha saído do lado dele. Ela era a
guerra, e a guerra nunca termina, apenas muda de leito.
O Banquete da
Anja Carnuda
O desejo não era um sentimento, era um bicho de casco rachado pisoteando
o estômago do narrador. Ele sonhava com as fêmeas da vila, com suas ancas
largas e o cheiro de suor doce misturado ao farelo de sorgo. Mas o que ele
encontrou na estrada poeirenta, sob o sol escaldante que fazia a terra gemer,
foi uma aparição.
Uma morena grandota, uma torre de carne rica envolta num pano curto que
mal cobria suas coxas grossas como troncos de pessegueiro. Ela caminhava com a
altivez de uma imperatriz, e a poeira que se levantava de seus pés parecia
incenso. Aos olhos dele, ela era a fêmea primordial, o milagre da criação
destilado em curvas generosas. A coragem subiu-lhe à boca como bile.
— Sobe? — ele cuspiu, o coração batendo como um tambor de guerra.
Eles foram para uma estalagem de beira de estrada, um lugar fétido que
cheirava a mofo e a segredos mal enterrados. No quarto escuro, o desmonte.
Ela começou a se despir e ele estremeceu, não de prazer, mas de um
terror ancestral. À medida que as roupas caíam, a flacidez de sua carne se
revelava, não como decadência, mas como uma abundância monstruosa. Ela era um
colosso, uma montanha de carne que ameaçava esmagá-lo.
— Sim, bebê — a voz dela soou como o ranger de uma porta pesada. — Vai
mamar muito.
Ele gelou. O sangue fugiu-lhe do rosto, deixando-o lívido como um
cadáver. Olhou para o instrumento que emergia daquela massa carnuda, olhou para
o destino final daquela jornada.
— Alguém aguenta isso no buraquinho? — ele balbuciou, a voz sumindo.
— Tem quem aguente — ela sorriu, revelando dentes amarelos. — E você vai
comer dobrado.
O banho dela foi rápido, mas para ele durou uma eternidade. O som da
água caindo misturava-se ao som do seu próprio coração batendo. Quando ela
voltou, o instrumento já estava endurecido, uma viga de aço batendo-lhe no
rosto. Ele tentou recuar, o medo travando-lhe o gogó.
— Deixa de frescura — ela disse, a voz cheia de um prazer cruel. — Mama
logo que eu sei que você quer.
Ela enfiou aquilo na boca dele, uma invasão brutal que não pedia
licença. E começou a foder. Aquilo crescia dentro dele, um bicho selvagem,
proporções de animal pré-histórico que ameaçavam rasgá-lo por dentro.
— De quatro — ela ordenou, com a autoridade de quem domina o mundo. —
Vou te deixar louco.
Língua no ralo, língua no mel. Ele desfalecia, transformado num boneco
de pano nas mãos dela. Uma marionete cujas cordas eram puxadas por um prazer
que se confundia com a dor.
— Não cabe — ele gemeu, a voz fraca.
— Teu rabo é estreito, bebê — ela sussurrou no ouvido dele, a voz
quente. — Só vou brincar na porta.
Passou a cabeça. Aperto, gemido, o estouro. Entrou. Uma dor de faca
rasgando-lhe as entranhas, mas ela nem viu. Deitou nas costas dele, o hálito
quente no ouvido:
— Rabinho rico. Vou te comer todo.
E empurrou o resto. Uma mistura supliciante de dor e gozo. Ela de olhos
virados, o bombear lento e rítmico, como o pulsar da própria terra. Tirava
tudo, botava tudo. Ele chorava de dor, ela de prazer.
— Toma pica, toma sabroso — ela rugia, a voz ecoando no quarto abafado.
Me comeu em todas as posses. De quatro, de lado, de alma aberta. Bombeou
até que ele jorrasse sem que um único toque na polpa. Uma ejaculação
involuntária, fruto de um prazer que transbordava do corpo. Nunca tinha sido
tão bem comido.
Agora, o silêncio do quarto. O vazio que se instala após a tempestade.
Fica a saudade e o medo. Não volta. Não tem peito para enfrentar aquela pica de
novo: grande, cabeçuda, grossa. Uma lembrança que assombrará seus sonhos, uma
marca indelével na sua carne.
O Açoite do Sorgo Vermelho
O cinto
sibilou no ar, uma cobra de couro preta rasgando o silêncio da noite abafada. O
estalo foi seco, como um galho de pessegueiro quebrando, e a carne do lombo do
narrador ardeu, uma queimadura que parecia vir do centro da terra. Michelle,
com as mãos grossas e calejadas pelo trabalho no campo, puxou-lhe o cabelo, a
nuca estalando com um som que ecoou nas paredes de barro da cabana.
— Gosta
de apanhar, cadela? — a voz dela soou como o ranger de uma porta pesada, cheia
de um prazer cruel.
O
primeiro golpe foi apenas o começo. O couro encontrou a carne com uma precisão
cirúrgica, e o sexo do narrador pulsou, uma resposta involuntária a uma dor que
se confundia com o prazer. Outros três golpes vieram em seguida, rápidos e rítmicos,
no centro do alvo, deixando marcas vermelhas que pareciam cicatrizes antigas.
Ele tentou se levantar, mas Michelle o esmagou contra o sofá velho e gasto, um
peso que parecia o de uma montanha.
— Fica
quieta, tarada — ela sussurrou no ouvido dele, o hálito quente misturado ao
cheiro de sorgo fermentado. — Vou te dar o que você quer.
Sem
aviso, o cabo da raquete de tênis entrou, frio e duro, uma invasão brutal que
não pedia licença. O narrador gritou, um grito que rasgou a garganta e se
perdeu na noite, mas o corpo traiu a voz, empurrando contra a fibra, buscando
mais daquela penetração dolorosa.
— Quer
meu pau? — ela riu, uma risada que soou como o choro de um recém-nascido. — Vai
ser minha escrava.
Michelle
socava o cabo, fundo, o ritmo de uma metralhadora que não parava de atirar. O
narrador já não era ele mesmo. Era um bicho gemendo obscenidades, pedindo a
pica, implorando o gozo que parecia estar sempre fora de alcance. Michelle
acelerou, o movimento tornando-se frenético, o mundo girando ao redor deles em
um turbilhão de suor e impacto.
No fim,
ele ficou lá. Pernas abertas, tremendo no colchão fétido, o corpo coberto de
marcas e suor. Escrava não pede descanso. Escrava espera o próximo comando, a
próxima dor que traria um prazer passageiro, uma ilusão de vida em meio à morte
que os cercava.
O Alvorecer da Carne Escancarada
Naquela manhã, o sol de Gaomi ainda não havia rompido a
linha do horizonte, mas o sangue de Pamela já fervia como uma caldeira de
destilação de licor de sorgo. Ela acordou com o membro — aquela haste de vinte
e cinco centímetros de puro instinto — pulsando contra o tecido da calcinha
como um bicho enjaulado tentando romper as grades. O desejo não era uma ideia;
era uma fome física, uma necessidade de ser invadida, de ter o vazio preenchido
por algo que a fizesse esquecer o próprio nome.
Ela pensou no vizinho, Jair. Um rapaz de dezenove anos,
de pele alva e carnes ainda moles, cujo dote era apenas uma promessa modesta,
um graveto diante de uma fogueira que pedia troncos. Mas quem tem a alma em
chamas não escolhe o combustível.
Quando Jair entrou no quarto, o ar estava denso. Pamela
esperava-o nua, uma estátua de marfim e desejo. Ele moveu-se com a hesitação
dos inexperientes, babando sobre as nádegas dela como um bezerro diante do sal.
A penetração foi um exercício mecânico. O pênis médio de Jair subia e descia,
estocando com a força de quem tenta cavar um poço em terra seca, mas não havia
música naquela dança. Ele gozou e agradeceu, humilde como um servo, enquanto
Pamela permanecia lá, com a bunda latejando em um ritmo de desespero. O fogo
não havia sido apagado; fora apenas atiçado.
Foi então que vieram as gigantes. Lígia surgiu como uma deusa esculpida em
ébano, trazendo consigo Renata, uma figura cuja presença exalava o mistério das
matas fechadas. Lígia libertou seu membro — uma serpente negra e reluzente de
vinte e três centímetros que parecia carregar o peso de mil histórias.
O quarto tornou-se um campo de batalha de fluidos.
Pamela sentiu o pau preto de Lígia — quente como ferro de ferrar gado —
deslizar para dentro de seu ventre. Era uma delícia amarga, um vibrar de
vísceras que a fazia gritar como uma loba para a lua inexistente. Ela gozou sob
o comando daquela haste escura, mas o centro de sua existência ainda clamava
por algo mais devastador.
Lígia, percebendo que a fome de Pamela era um abismo
sem fundo, entregou-a ao destino final. Renata despiu-se.
O que surgiu entre as coxas de Renata não era um órgão
humano; era uma monstruosidade
geológica. Grande, grossa, uma tora de carvalho que desafiava as leis da
anatomia. Pamela sorriu com o terror nos olhos. Aquilo não caberia. Aquilo a
rasgaria como uma foice rasga o talo do sorgo.
— No chão — rugiu Renata. O pano foi estendido como um altar de sacrifício.
Sem óleos, sem unguentos, apenas com o esperma de Lígia
servindo de lubrificante sacrificial, Renata posicionou a cabeça daquela haste
monstruosa na entrada do abismo de Pamela. O empurrão foi uma dor sobrenatural,
um relâmpago que atravessou a espinha de Pamela e a fez ver as estrelas
cadentes do sofrimento.
A penetração era um esfolamento vivo. A cada estocada,
Renata a chamava de nomes baixos, nomes que reduziam Pamela à sua essência mais
animal, mais pura. Pamela movia os quadris como uma cadela possuída, jogando
todo o peso do seu corpo contra aquela coluna de carne para sentir a totalidade
da invasão.
O prazer explodiu não pelo toque, mas pela pressão
insuportável. Pamela gozou repetidamente, o líquido jorrando enquanto o membro
de Renata trabalhava dentro dela como um pistão em uma máquina de moer grãos.
Era um suplício sagrado. Renata segurou-a pela cintura com garras de ferro e
despejou seu calor por toda a extensão de suas nádegas.
Quando o açoite de carne finalmente se retirou, o
silêncio caiu como cinzas. Lígia ergueu o espelho. Pamela olhou para o reflexo
de sua própria ruína. Não havia mais dobras, não havia mais mistério. O que ela
viu foi um portal escancarado, uma cratera aberta pela força de uma vontade
maior que a própria vida. Ela estava, enfim, vazia e completa.
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