domingo, 8 de março de 2026

CONTOS QUE A NEVE NÃO ENTERROU

 

CONTOS QUE A NEVE

NÃO ENTERROU

 

GABRIEL DE ATAIDE DE MELO

 

 

A Anja Caída

Dedido para Mo Yan e Kenzaburo Oe, mestres do Oriente

O cheiro não era de glória, mas de intestino furado e sorgo podre fermentando sob o sol impiedoso de Gaomi. Shigeru, cujas mãos ainda tinham a maciez da infância órfã nos templos de Kyoto, segurava o fuzil Arisaka como se fosse uma cruz profana. Ele não queria estar ali. Ele queria o silêncio dos sutras, não o tcheco-tcheco metralhado das rãs nos pântanos de sangue, que pareciam zombar dos gritos dos moribundos. A guerra era um estômago gigante que devorava homens e cuspia fantasmas.

Sua unidade avançava pelas plantações de sorgo, que se erguiam como paredes de um labirinto escarlate. Foi quando ele a viu.

Ela estava sentada sobre um monte de corpos chineses retorcidos, com a naturalidade de quem descansa em um jardim de peônias. Era a mulher mais linda que Shigeru já vira, uma visão de porcelana em meio ao barro. Seus cabelos eram negros como o nanquim fúnebre, e sua pele brilhava com uma palidez lunar. Mas quando ela sorriu, Shigeru viu que seus dentes eram afiados como agulhas de costurar couro, e atrás dela, misturando-se com a fumaça das vilas queimadas, pairavam asas. Não asas de penas, suaves e brancas, mas membranas coriáceas, negras e úmidas, como as de um morcego gigante destilando o luto do mundo.

— Shigeru — a voz dela era o zumbido de mil moscas varejeiras varejando um cadáver doce. — Você parou. Por que parou?

Shigeru tremia. O medo paralisava suas pernas, fazendo o suor frio escorrer pelas costas como vermes. — Quem é você? Uma Anja?

— Eu sou o que você precisa que eu seja, pequeno soldado. Eu sou a justiça do Imperador. Eu sou a fome do aço — ela desceu do monte de mortos com uma graça sobrenatural. Suas unhas eram garras longas, pintadas com o sangue seco dos camponeses. Ela tocou o peito de Shigeru, e ele sentiu o calor de uma fornalha. — Você deve matar, Shigeru. Matar sem piedade. Corte as gargantas deles como se fossem talos de sorgo. Beba o sangue deles para que sua própria fraqueza desapareça. Cada chinês que você poupa é uma traição à sua existência.

Shigeru olhou para o fuzil, depois para as plantações, onde os gritos dos civis ainda ecoavam. A doutrina da paz que os monges lhe ensinaram lutava contra o terror ancestral que a demônia emanava.

— Não... — Shigeru gaguejou, a voz falhando. — Isso é contra... isso é contra as leis da paz. O buda ensina a compaixão. Eles são homens, como eu. Têm mães, têm fome. Eu não posso...

O rosto da Anja Caída transfigurou-se. A beleza de porcelana rachou, revelando uma mandíbula que se alongava, cheia de dentes múltiplos, e olhos que se tornaram fendas verticais amarelas. O cheiro de peônias foi substituído pelo fedor insuportável de enxofre e decomposição avançada.

Paz? — Ela rugiu, e o som fez as folhas de sorgo tremerem. — A paz é uma mentira para os fracos! O mundo é dor e conquista! Se você não devora, você é devorado!

Com um grito que rasgou o ar, ela saltou sobre ele. Suas garras buscaram os olhos de Shigeru. Ele agiu por puro instinto animal, o fuzil subindo não como uma arma de paz, mas como um porrete de desespero. A baioneta calada penetrou a membrana da asa direita da demônia, que soltou um uivo de agonia que soou como metal rangendo contra metal.

Eles rolaram no barro infestado de sangue. Ela mordia e arranhava, sua pele queimando a dele como ácido. Shigeru, em um transe de terror e fúria sobrevivente, agarrou uma pedra pesada e pontuda no chão e golpeou-a repetidamente na cabeça, no lugar onde a beleza costumava estar. O sangue que jorrava dela era preto e fedia a óleo queimado. Ele golpeou até que as asas coriáceas pararam de debater, até que o corpo dela se dissolveu em uma poça de piche borbulhante que a terra do sorgo recusava absorver.

Shigeru, exausto e coberto daquele piche imundo, olhou para o céu. O sol de Gaomi estava se pondo, vermelho como o inferno. Ele sentiu o mundo girar, a realidade se desfazendo como papel molhado.


Ele acordou com o som não de tiros, mas de tossidas secas e o gotejar rítmico de algum líquido. O teto não era feito de folhas de sorgo, mas de gesso descascado e vigas de madeira carbonizada. O cheiro não era de enxofre, mas de iodo, urina velha e ferrugem.

Shigeru tentou se mover, mas seu corpo pesava como chumbo. Ele estava deitado em uma cama de ferro rangendo, em um hospital em ruínas. Pela janela sem vidro, ele viu, em vez das planícies chinesas, uma paisagem de cinzas e esqueletos de prédios. Era o Japão. Estava em casa, mas a casa estava morta.

Uma enfermeira com o rosto coberto por uma máscara de pano suja aproximou-se, seus olhos cansados mal olhando para ele. Ela tocou sua testa e retirou a mão rapidamente, como se tivesse tocado em brasa.

— Ele está ardendo de febre — ela murmurou para ninguém em particular, injetando algo no braço dele com uma agulha cega. — Alucinando de novo. Falando sobre anjos e sorgo.

Shigeru fechou os olhos, a febre subindo como uma maré negra, trazendo de volta o cheiro de enxofre e o sorriso de dentes de agulha. Ele percebeu, com uma clareza terrível, que a demônia nunca tinha saído do lado dele. Ela era a guerra, e a guerra nunca termina, apenas muda de leito.

 


O Banquete da Anja Carnuda

O desejo não era um sentimento, era um bicho de casco rachado pisoteando o estômago do narrador. Ele sonhava com as fêmeas da vila, com suas ancas largas e o cheiro de suor doce misturado ao farelo de sorgo. Mas o que ele encontrou na estrada poeirenta, sob o sol escaldante que fazia a terra gemer, foi uma aparição.

Uma morena grandota, uma torre de carne rica envolta num pano curto que mal cobria suas coxas grossas como troncos de pessegueiro. Ela caminhava com a altivez de uma imperatriz, e a poeira que se levantava de seus pés parecia incenso. Aos olhos dele, ela era a fêmea primordial, o milagre da criação destilado em curvas generosas. A coragem subiu-lhe à boca como bile.

— Sobe? — ele cuspiu, o coração batendo como um tambor de guerra.

Eles foram para uma estalagem de beira de estrada, um lugar fétido que cheirava a mofo e a segredos mal enterrados. No quarto escuro, o desmonte.

Ela começou a se despir e ele estremeceu, não de prazer, mas de um terror ancestral. À medida que as roupas caíam, a flacidez de sua carne se revelava, não como decadência, mas como uma abundância monstruosa. Ela era um colosso, uma montanha de carne que ameaçava esmagá-lo.

— Sim, bebê — a voz dela soou como o ranger de uma porta pesada. — Vai mamar muito.

Ele gelou. O sangue fugiu-lhe do rosto, deixando-o lívido como um cadáver. Olhou para o instrumento que emergia daquela massa carnuda, olhou para o destino final daquela jornada.

— Alguém aguenta isso no buraquinho? — ele balbuciou, a voz sumindo.

— Tem quem aguente — ela sorriu, revelando dentes amarelos. — E você vai comer dobrado.

O banho dela foi rápido, mas para ele durou uma eternidade. O som da água caindo misturava-se ao som do seu próprio coração batendo. Quando ela voltou, o instrumento já estava endurecido, uma viga de aço batendo-lhe no rosto. Ele tentou recuar, o medo travando-lhe o gogó.

— Deixa de frescura — ela disse, a voz cheia de um prazer cruel. — Mama logo que eu sei que você quer.

Ela enfiou aquilo na boca dele, uma invasão brutal que não pedia licença. E começou a foder. Aquilo crescia dentro dele, um bicho selvagem, proporções de animal pré-histórico que ameaçavam rasgá-lo por dentro.

— De quatro — ela ordenou, com a autoridade de quem domina o mundo. — Vou te deixar louco.

Língua no ralo, língua no mel. Ele desfalecia, transformado num boneco de pano nas mãos dela. Uma marionete cujas cordas eram puxadas por um prazer que se confundia com a dor.

— Não cabe — ele gemeu, a voz fraca.

— Teu rabo é estreito, bebê — ela sussurrou no ouvido dele, a voz quente. — Só vou brincar na porta.

Passou a cabeça. Aperto, gemido, o estouro. Entrou. Uma dor de faca rasgando-lhe as entranhas, mas ela nem viu. Deitou nas costas dele, o hálito quente no ouvido:

— Rabinho rico. Vou te comer todo.

E empurrou o resto. Uma mistura supliciante de dor e gozo. Ela de olhos virados, o bombear lento e rítmico, como o pulsar da própria terra. Tirava tudo, botava tudo. Ele chorava de dor, ela de prazer.

— Toma pica, toma sabroso — ela rugia, a voz ecoando no quarto abafado.

Me comeu em todas as posses. De quatro, de lado, de alma aberta. Bombeou até que ele jorrasse sem que um único toque na polpa. Uma ejaculação involuntária, fruto de um prazer que transbordava do corpo. Nunca tinha sido tão bem comido.

Agora, o silêncio do quarto. O vazio que se instala após a tempestade. Fica a saudade e o medo. Não volta. Não tem peito para enfrentar aquela pica de novo: grande, cabeçuda, grossa. Uma lembrança que assombrará seus sonhos, uma marca indelével na sua carne.

 


O Açoite do Sorgo Vermelho

O cinto sibilou no ar, uma cobra de couro preta rasgando o silêncio da noite abafada. O estalo foi seco, como um galho de pessegueiro quebrando, e a carne do lombo do narrador ardeu, uma queimadura que parecia vir do centro da terra. Michelle, com as mãos grossas e calejadas pelo trabalho no campo, puxou-lhe o cabelo, a nuca estalando com um som que ecoou nas paredes de barro da cabana.

— Gosta de apanhar, cadela? — a voz dela soou como o ranger de uma porta pesada, cheia de um prazer cruel.

O primeiro golpe foi apenas o começo. O couro encontrou a carne com uma precisão cirúrgica, e o sexo do narrador pulsou, uma resposta involuntária a uma dor que se confundia com o prazer. Outros três golpes vieram em seguida, rápidos e rítmicos, no centro do alvo, deixando marcas vermelhas que pareciam cicatrizes antigas. Ele tentou se levantar, mas Michelle o esmagou contra o sofá velho e gasto, um peso que parecia o de uma montanha.

— Fica quieta, tarada — ela sussurrou no ouvido dele, o hálito quente misturado ao cheiro de sorgo fermentado. — Vou te dar o que você quer.

Sem aviso, o cabo da raquete de tênis entrou, frio e duro, uma invasão brutal que não pedia licença. O narrador gritou, um grito que rasgou a garganta e se perdeu na noite, mas o corpo traiu a voz, empurrando contra a fibra, buscando mais daquela penetração dolorosa.

— Quer meu pau? — ela riu, uma risada que soou como o choro de um recém-nascido. — Vai ser minha escrava.

Michelle socava o cabo, fundo, o ritmo de uma metralhadora que não parava de atirar. O narrador já não era ele mesmo. Era um bicho gemendo obscenidades, pedindo a pica, implorando o gozo que parecia estar sempre fora de alcance. Michelle acelerou, o movimento tornando-se frenético, o mundo girando ao redor deles em um turbilhão de suor e impacto.

No fim, ele ficou lá. Pernas abertas, tremendo no colchão fétido, o corpo coberto de marcas e suor. Escrava não pede descanso. Escrava espera o próximo comando, a próxima dor que traria um prazer passageiro, uma ilusão de vida em meio à morte que os cercava.

 

 


O Alvorecer da Carne Escancarada

Naquela manhã, o sol de Gaomi ainda não havia rompido a linha do horizonte, mas o sangue de Pamela já fervia como uma caldeira de destilação de licor de sorgo. Ela acordou com o membro — aquela haste de vinte e cinco centímetros de puro instinto — pulsando contra o tecido da calcinha como um bicho enjaulado tentando romper as grades. O desejo não era uma ideia; era uma fome física, uma necessidade de ser invadida, de ter o vazio preenchido por algo que a fizesse esquecer o próprio nome.

Ela pensou no vizinho, Jair. Um rapaz de dezenove anos, de pele alva e carnes ainda moles, cujo dote era apenas uma promessa modesta, um graveto diante de uma fogueira que pedia troncos. Mas quem tem a alma em chamas não escolhe o combustível.

Quando Jair entrou no quarto, o ar estava denso. Pamela esperava-o nua, uma estátua de marfim e desejo. Ele moveu-se com a hesitação dos inexperientes, babando sobre as nádegas dela como um bezerro diante do sal. A penetração foi um exercício mecânico. O pênis médio de Jair subia e descia, estocando com a força de quem tenta cavar um poço em terra seca, mas não havia música naquela dança. Ele gozou e agradeceu, humilde como um servo, enquanto Pamela permanecia lá, com a bunda latejando em um ritmo de desespero. O fogo não havia sido apagado; fora apenas atiçado.


Foi então que vieram as gigantes. Lígia surgiu como uma deusa esculpida em ébano, trazendo consigo Renata, uma figura cuja presença exalava o mistério das matas fechadas. Lígia libertou seu membro — uma serpente negra e reluzente de vinte e três centímetros que parecia carregar o peso de mil histórias.

O quarto tornou-se um campo de batalha de fluidos. Pamela sentiu o pau preto de Lígia — quente como ferro de ferrar gado — deslizar para dentro de seu ventre. Era uma delícia amarga, um vibrar de vísceras que a fazia gritar como uma loba para a lua inexistente. Ela gozou sob o comando daquela haste escura, mas o centro de sua existência ainda clamava por algo mais devastador.

Lígia, percebendo que a fome de Pamela era um abismo sem fundo, entregou-a ao destino final. Renata despiu-se.

O que surgiu entre as coxas de Renata não era um órgão humano; era uma monstruosidade geológica. Grande, grossa, uma tora de carvalho que desafiava as leis da anatomia. Pamela sorriu com o terror nos olhos. Aquilo não caberia. Aquilo a rasgaria como uma foice rasga o talo do sorgo.


— No chão — rugiu Renata. O pano foi estendido como um altar de sacrifício.

Sem óleos, sem unguentos, apenas com o esperma de Lígia servindo de lubrificante sacrificial, Renata posicionou a cabeça daquela haste monstruosa na entrada do abismo de Pamela. O empurrão foi uma dor sobrenatural, um relâmpago que atravessou a espinha de Pamela e a fez ver as estrelas cadentes do sofrimento.

A penetração era um esfolamento vivo. A cada estocada, Renata a chamava de nomes baixos, nomes que reduziam Pamela à sua essência mais animal, mais pura. Pamela movia os quadris como uma cadela possuída, jogando todo o peso do seu corpo contra aquela coluna de carne para sentir a totalidade da invasão.

O prazer explodiu não pelo toque, mas pela pressão insuportável. Pamela gozou repetidamente, o líquido jorrando enquanto o membro de Renata trabalhava dentro dela como um pistão em uma máquina de moer grãos. Era um suplício sagrado. Renata segurou-a pela cintura com garras de ferro e despejou seu calor por toda a extensão de suas nádegas.

Quando o açoite de carne finalmente se retirou, o silêncio caiu como cinzas. Lígia ergueu o espelho. Pamela olhou para o reflexo de sua própria ruína. Não havia mais dobras, não havia mais mistério. O que ela viu foi um portal escancarado, uma cratera aberta pela força de uma vontade maior que a própria vida. Ela estava, enfim, vazia e completa.

 

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