terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Interminável Pesadelo Latino-Americano

          Vi as gerações mais brilhantes do meu bairro se perderem em oficinas literárias financiadas por fantasmas, jovens de casaco de couro falso e olhos injetados que liam Baudelaire em edições de bolso manchadas de café. Entre eles, havia um garoto — chamemo-lo de Arturo, chamemo-lo de Ninguém — que segurava um copo de rum barato como se fosse o Santo Graal num bar decadente da Rua Augusta ou talvez na Recoleta, enquanto a fumaça do cigarro desenhava o mapa de uma pátria que já não existia.

         Ele ria, uma risada seca, de quem conhece todos os abismos, e dizia, entre um gole e um acesso de tosse existencial: "Paula Parisot é uma miragem, um truque de espelhos no deserto, só publica seus livros porque o velho Rubem Fonseca, o Grande Lobo Solitário da Rua Teixeira de Melo, decidiu que ela seria sua última e mais estranha invenção." Dizia isso com o sarcasmo dos que nunca publicaram nada, com o veneno destilado daqueles que guardam originais na gaveta como se fossem granadas prestes a explodir (e nunca explodem). Para ele, a literatura não era arte, era um caso de polícia, um tráfico de influências sob a sombra de um mestre do soco inglês, um labirinto onde a beleza era apenas um subproduto do apadrinhamento. "A Parisot no pedestal e nós no porão", ele gritava, enquanto o pesadelo latino-americano continuava lá fora, com seus generais esquecidos, seus poetas assassinados em valas comuns e suas editoras que parecem necrotérios de luxo. 

      Ele acreditava que o estilo era uma questão de genética literária, um DNA passado por Rubem entre um conto de facas e um dente de ouro, ignorando que, no final, todos acabaremos na mesma estante empoeirada, devorados pelas traças da indiferença e pelo vento frio de Sonora.O jovem escritor acabou desaparecendo num trem noturno para lugar nenhum, levando consigo seu rancor, sua lucidez inútil e o seu exemplar de Agosto.

       E a literatura, essa grande prostituta triste, continuou caminhando, alheia aos nossos insultos, sorrindo para os padrinhos enquanto o sol se punha sobre as ruínas de um continente que nunca aprendeu a ler, apenas a sobreviver ao próximo capítulo do horror.

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