segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

NÃO É BOM ESCREVER POESIA

 

Diz-se, com certa frequência e uma dose justificável de irritação, que o ato de alinhar versos é uma ocupação espúria, uma espécie de "exibicionismo da precisão" que falha justamente onde a vida — bruta, desatenta e magnífica — exige apenas o silêncio. Não é bom, de fato, submeter a percepção ao torniquete da métrica ou à tirania da metáfora, onde um simples "gato de alguidar" precisa, por força do ofício, tornar-se um emblema da paciência metafísica. Há algo de intrinsecamente ilegítimo em tentar capturar o movimento de um mecanismo de relógio ou a textura de uma epiderme de elefante através de adjetivos que, por mais polidos que sejam, nunca terão a "solidez de um fato".

O problema reside no que alguns chamam de entusiasmo desnecessário: aquela busca por uma "profundidade" que, na verdade, é apenas uma camada de verniz sobre a clareza. Se o poema não puder ser tão útil quanto um manual de instruções para um microscópio, ou tão honesto quanto o peso de um seixo na mão de uma criança, então ele é apenas um "jardim imaginário com sapos reais", onde os sapos, infelizmente, morreram de tédio.

A escrita, quando se torna "poesia" com P maiúsculo, corre o risco de virar uma coleção de curiosidades sem vitrine; perde-se a "genuidade" em favor do ornamento. É preferível, talvez, a leitura de catálogos de negócios, de estatísticas sobre a migração das andorinhas-do-mar ou de documentos técnicos sobre a resistência dos materiais. Nestes textos, a verdade não tenta nos seduzir; ela simplesmente está lá, despida da vaidade de querer ser bela. No entanto, se ao desprezar a poesia, descobrirmos nela um lugar para o que é crucial e direto, talvez — e apenas talvez — ela deixe de ser um erro para se tornar uma forma de resistência contra a imprecisão do mundo.

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