Eis-me aqui,
escrevendo muito
para ninguém ler.
Escrevendo —
(e escrevendo errado, talvez) —
sobre coisas:
o mar,
o amor,
a dor,
a velhice que ainda não veio
mas já ensaia seu passo no corredor,
a doença como hipótese,
Deus como ruído de fundo.
Escrevo sobre tudo
porque nada responde.
Ninguém deu importância.
E agora já não importa
falar da porta,
nem do tempo,
nem do mal,
nem do bem.
Tudo isso coça.
Tudo isso é sarna.
Uma ilusão bem organizada
em parágrafos,
um pequeno capítulo do apocalipse
lido no intervalo do almoço.
As palavras se empilham
como móveis antigos
num apartamento vazio.
Já não há centro.
A frase não leva a lugar algum.
O sentido evapora
antes do ponto final.
E no fim —
quando o mundo se cansa
de ser explicado —
resta apenas
o mínimo impronunciável:
eu
e tu,
amor.
Nada mais a discutir.
Nada mais a salvar.
Apenas
dizer —
como quem fecha um livro
que nunca foi aberto:
adeus.
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