terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Os judeus em Recife


há histórias que caminham pelas calçadas de recife como se fossem velhas conhecidas. histórias que se assentam no calor úmido dos sobrados, misturando o cheiro do açúcar fervido, o murmúrio dos rios, o rangido das pontes de madeira. entre essas histórias, a dos judeus que ali chegaram — vindos de amsterdã, da península ibérica, da diáspora que os espalhou como sal sobre terras diversas — é das mais antigas e resistentes.

câmara cascudo, se tivesse sentado à mesa conosco para prosear sobre esse assunto, diria que os judeus vieram como quem traz consigo um baú de tradições que se entrelaçam com a terra nova. não apenas comerciantes, nem somente intérpretes de textos sagrados, mas homens e mulheres que se aclimataram rapidamente ao sol recifense, à língua que se dobrava em pregas e cantigas, ao jeito açucareiro de negociar. gentes que sabiam plantar raízes mesmo andando.

e gylberto freyre, com sua visão de casa-grande e engenho, de sombra e luz nas civilizações tropicais, completaria dizendo que o recife holandês não seria o mesmo sem a presença hebraica. as ruas estreitas de bois, o porto buliçoso, as lojas cheias de tecidos e especiarias — tudo carregava a marca desses judeus de fala múltipla, alguns ainda com o sotaque castelhano escondido na garganta. foram eles que teceram com paciência de ourives grande parte da vida mercantil que pulsava entre os canais e manguezais.

recife, naquela época em que o açúcar era rei e senhor, acolheu sinagogas discretas, como quem abriga um pássaro raro. ali, no silêncio dos becos, as orações se misturavam ao som das marés. a famosa sinagoga kahal zur israel, primeira das américas, era mais do que um templo: era o coração de um povo que aprendera a sobreviver entre guerras, edictos, expulsões e esperanças.

na paraíba, por sua vez, cascudo talvez anotasse em seus cadernos o modo como esses judeus se espalharam pelos caminhos da ribeira, levando consigo não apenas o talento para o comércio, mas também uma inteligência adaptada à diversidade. havia judeus no brejo e no sertão, judeus que lidavam com boiada e com algodão, judeus que se tornaram parte invisível da paisagem, trazendo ao cotidiano paraibano um toque de cosmopolitismo antes mesmo que essa palavra encontrasse lugar nos dicionários.

o encontro entre judaísmo e nordeste não se deu em choque, mas em conversa — dessa conversa morna, cheia de histórias de família, que freyre tão bem sabia farejar. talvez porque ambos conhecessem o peso da sobrevivência sob o sol, a necessidade do trabalho contínuo, o valor da palavra empenhada. talvez porque, no fundo, tanto recifenses quanto judeus fossem povos de travessia.

o fato é que, quando o século passou suas mãos pela geografia social da região, muito do que ficou — no comércio, no urbanismo, nos hábitos — trazia marcas deixadas por essa presença. não marcas profundas como cicatrizes, mas como vestígios de perfume que persistem nas paredes velhas.

os judeus em recife e na paraíba foram mais do que personagens da história holandesa; foram fios que ajudaram a costurar o tecido variado do nordeste. e se hoje se busca entender o espírito da região, não se pode ignorar essas almas que circularam entre engenhos, portos e sinagogas, unindo o velho mundo ao novo com uma naturalidade que só os povos de muito caminho são capazes de ter.

assim, nas palavras misturadas de cascudo e freyre, fica o retrato de um recife plural, barroco, tropical — onde até as águas dos rios parecem carregar, ao fluir, um pouco da memória judaica que ali encontrou morada.

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