terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O Relógio de Pedra


I. A Lógica Torta

O dia nasce, cinza na janela. Tenho um pedaço de vida na mão, Um tique-taque sem razão nem vela, Que a gente gasta sem dó, sem perdão.

Inventamos o ócio, a fila, o jornal, A novela que nunca acaba, o blá-blá-blá. Toda invenção que nos faz sentir imortal, Enquanto o ponteiro segue no seu lugar.

Olhamos o relógio, impacientes, Dizendo: "Anda, bicho, move-te." E em todas as horas, nos instantes, Profanamos o que a vida nos oferece.

É a nossa lógica torta, a sentença: Nós matamos o tempo; o tempo nos enterra.

II. A Cova no Jardim

O tempo é um jardineiro distraído. A gente enterra o minuto, a hora, o mês, Num buraco raso, meio escondido, Pensando que a semente não volta mais.

Mas ele é paciente, não tem pressa. Vê o nosso esforço, o nosso afã. E enquanto a gente corre, ele nos abraça, Com a terra preta da manhã.

Depois do último tique, do último suspiro, O jogo inverte, a regra se aplica: O matador vira espectro em retiro, E o tempo, sereno, de nós se salpica.

Pois ele não tem fim, não tem luto, Só a dignidade do que há de ser. E o que matamos em cada minuto, É o que, por fim, vai nos receber.

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