segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O passado do amor



para p. m.

Ele tinha sessenta anos e acordava cedo, mesmo agora que o corpo já não pedia trabalho. O quarto era simples, a luz entrava reta pela janela, e ele ficava algum tempo olhando o pó dançar no ar. Pensava que a vida tinha sido longa o bastante e que não havia mais nada a consertar. O coração batia devagar. Não era dor. Era aviso.

Quando pensava no passado, não via cenas confusas. Via coisas claras e exatas. Uma rua, uma tarde, um rosto. A primeira namorada vinha sempre primeiro, como vem o cheiro do mar antes de se ver a água. Ele não precisava chamá-la. Ela vinha sozinha.

Conheceu-a quando ela tinha dezenove anos. Era jovem, mas não frágil. Andava rápido e olhava nos olhos. Ele gostou disso logo de início, porque não gostava de desvios. Falavam pouco no começo, e isso lhes bastava. O silêncio entre eles era limpo.

Encontravam-se depois do trabalho dele e das aulas dela. Caminhavam sem pressa, como se o tempo fosse uma coisa que se podia gastar sem culpa. Às vezes sentavam num banco e observavam as pessoas passarem. Não julgavam ninguém. Apenas viam.

Ela ria quando algo era engraçado e ficava séria quando não era. Não fazia esforço para agradar. Ele aprendeu cedo que aquilo era raro. Gostava das mãos dela, firmes, e da maneira como ela segurava um copo, como se soubesse exatamente o peso das coisas.

O amor veio sem barulho. Não houve promessas grandes nem palavras difíceis. Houve constância. Houve dias iguais que não cansavam. Ele pensou que aquilo era o melhor que a vida tinha a oferecer, e ficou satisfeito.

Decidiu pedir-lhe em casamento numa manhã clara. Não contou a ninguém. Comprou um anel simples, porque achava que o simples dura mais. Colocou-o no bolso do paletó e saiu de casa com uma leveza que não sentia havia anos.

Ela não chegou ao encontro. Houve um acidente na estrada. Um caminhão, disseram. A notícia veio truncada, como vêm as coisas que não se quer ouvir. Ele foi ao hospital e reconheceu o corpo com uma calma que depois não entendeu.

Nos dias seguintes, o mundo continuou funcionando. As pessoas trabalharam, os ônibus passaram, o sol nasceu. Aquilo o ofendeu, mas ele não disse nada. Guardou o anel numa caixa e empurrou a caixa para o fundo de uma gaveta.

Não falou muito sobre ela. Não porque doesse demais, mas porque não havia o que acrescentar. A história era curta e completa. Ele não gostava de explicações longas para coisas simples.

Com o tempo, casou-se com outra mulher. Teve filhos. Fez o que precisava ser feito. Foi um bom marido e um bom pai. Não comparava. Cada coisa tinha o seu lugar.

Agora, aos sessenta, sentia o corpo falhar de modo honesto. A respiração encurtava. As mãos tremiam às vezes. Os médicos falavam em cuidado, mas ele sabia ler os sinais.

Pensava nela com mais frequência. Não com tristeza. Pensava como quem pensa numa casa onde morou bem e que já não existe. O que importa é ter morado.

A ideia da morte não o assustava. Pelo contrário. Havia nela uma ordem que ele respeitava. Tudo que começa termina, e isso sempre lhe pareceu justo.

Imaginava que talvez a encontrasse de algum modo. Não como eram antes, porque o tempo não permite isso. Mas talvez bastasse reconhecê-la. Um olhar seria suficiente.

Sentia-se contente por sentir a morte se aproximar. Não porque quisesse fugir da vida, mas porque a vida já tinha dito o que tinha a dizer. Ele tinha ouvido.

Naquela manhã, a luz entrou do mesmo jeito pela janela. Ele fechou os olhos com cuidado. O passado do amor estava inteiro. E isso bastava.

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