Escrevi para todos e para ninguém em bibliotecas frias,
onde os livros respiram como animais mitológicos
e cada página é um corredor para outro universo.
Ali compreendi —
como o tempo, a história cíclica e a natureza do
"Ka" egípcio (o duplo da alma) para refletir sobre
a eternidade e a repetição de eventos na vida humana e cósmica —
não são teorias, mas portas.
Portas que se abrem e se fecham
com a mesma indiferença com que uma estrela nasce.
Eu, que nada sou além de um sussurro numa era de ruínas,
caminho entre sombras que parecem minhas,
mas pertencem ao meu outro,
aquele que me precedeu nos séculos esquecidos
e que me sucederá no último porvir.
O vanguardista que vive em mim
aprende com a poeira das bibliotecas perdidas,
mesclando a mitologia às engrenagens do modernismo,
porque nenhum futuro existe sem a respiração antiga do mundo.
O Egito, com seus deuses de animais imóveis,
sabe mais sobre mim
do que qualquer espelho que ainda suportei.
Assim, escrevo um épico invisível:
sobre homens que renascem em cidades que não conhecem,
sobre batalhas que já aconteceram e acontecerão,
sobre amantes que se reencontram
em idiomas que nunca aprenderam.
E enquanto a Terra gira seu labirinto interminável,
compreendo que existir é repetir-se,
como o rio que se dobra sobre si mesmo,
como o sonho que sonha outro sonho,
como o tempo que nunca aprende,
como o livro que nunca termina.
E que tudo o que escrevo —
para todos ou para ninguém —
já foi escrito pelo meu Ka,
e será escrito novamente
em outro ciclo do mundo.
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