Escrever é um dom que existe para se opor à morte! — penso isso enquanto observo a tarde descer lenta sobre o rio, trazendo consigo o cheiro de folhas úmidas e lembranças que insistem em não envelhecer. A morte, aqui, não chega de repente; ela se anuncia em pequenas perdas: uma casa vendida, uma voz que se cala, um rosto que a memória começa a borrar. Escrever é uma forma de atraso, um gesto mínimo contra o desaparecimento. Aprendi cedo que as palavras guardam o que o tempo tenta roubar. Na infância, ouvi histórias que hoje sei serem maiores do que a própria vida de quem as contou. Não importava a exatidão dos fatos, mas o modo como eles eram narrados, com pausas, silêncios e repetições, como se a fala precisasse de fôlego para resistir. Quando alguém morria, ficava a história — e, às vezes, era isso que nos permitia continuar. Escrever não salva ninguém, eu sei. Não devolve o corpo, não recompõe o rosto perdido, não impede a erosão da saudade. Mas cria uma margem. Um lugar onde os ausentes ainda respiram, ainda caminham pelas ruas antigas, ainda discutem à mesa, ainda olham o rio como se o amanhã fosse certo. Nesse espaço frágil, a morte encontra resistência, ainda que provisória. Talvez por isso a escrita seja feita de retornos. Volta-se sempre aos mesmos lugares, às mesmas cenas, como quem revisita uma casa abandonada para confirmar que ela ainda existe, mesmo em ruínas. Cada frase é uma tentativa de nomear o que já não está, de oferecer forma ao que insiste em desaparecer. Escrever é, no fundo, um gesto de fidelidade. Às pessoas, às cidades, às vozes que nos formaram. Enquanto houver quem escreva, algo permanece de pé. E se a morte insiste — porque sempre insiste —, a palavra responde com sua teimosia silenciosa, prolongando a vida por mais um parágrafo.
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