Não saio de casa porque já morri,
a rua tem cheiro de corpo e salário,
cada vitrine é um crucifixo diário,
e o amor é um vício que eu nunca escolhi.
Quando saio o trabalho me mata, enfim,
me fura o peito com riso bancário,
a carne se vende em ritos do horário,
e o tempo engole o resto de mim.
O deus do silêncio, em seu ceuzinho estreito,
conta moedas, pesa o meu defeito,
olha o pó dos homens, e se diverte.
Somos farelos dos pés que nos pisam,
anjos de plástico que nunca aterrissam,
mortos de pé fingindo estar de pé — inertes.
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