segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Poço - versão II


  1. A cidade de Bortpokr cheirava a mofo e desespero. Era o tipo de lugar onde o asfalto rachado parecia ter sido abandonado décadas atrás, e os ventos de outono sopravam sussurros gélidos que não eram apenas ar.

  2. O Delegado Roy Benner estava cansado. Seus 45 anos pareciam 70 sob as luzes fluorescentes bruxuleantes da delegacia. Há cinco meses, as mortes misteriosas haviam começado, e a explicação de "acidente" dos legistas era uma piada de mau gosto.

  3. Primeiro, foi a velha Sra. Gable, encontrada no seu quintal com uma expressão de terror petrificada, as roupas rasgadas, e a única lesão: três arranhões profundos e paralelos no peito, como garras.

  4. Depois, o adolescente local, Billy, desapareceu. Uma semana depois, encontraram seu boné de beisebol pendurado em uma cerca de arame farpado a quatro quarteirões do seu sumiço. O boné estava molhado, e cheirava a água parada e azeda.

  5. Benner não conseguia dormir. Sua esposa, Martha, o olhava com uma mistura de preocupação e medo, sabendo que a escuridão da cidade estava engolindo o marido.

  6. Ele sabia, com a certeza fria que atinge um homem em uma noite sem estrelas, que não era um animal. Animais não deixavam aquele cheiro. Não causavam aquele tipo de medo.

  7. A pista mais forte levava ao velho Poço dos Finch, abandonado há anos, no meio de um milharal ressecado na extremidade da cidade. Era um buraco negro, cercado por pedras úmidas e musgo escorregadio.

  8. O Poço dos Finch era mais do que um poço; era uma lenda urbana. Diziam que era o mais profundo do condado, perfurando a rocha até um aquífero subterrâneo, ou talvez até o próprio inferno.

  9. Benner o visitou após o desaparecimento de Billy. Ele inclinou-se sobre a borda, a lanterna cortando a escuridão úmida. O feixe de luz parecia ser engolido, e o único som era o plop fraco de uma gota d'água caindo muito, muito longe.

  10. Ele notou a terra revirada ao redor da borda. Não parecia pisoteada por um humano, mas como se algo tivesse rastejado para fora e para dentro.

  11. O Delegado acendeu um cigarro, o cheiro de tabaco contrastando com o aroma podre que emanava do buraco. Naquela noite, ele soube que o assassino vivia lá embaixo.

  12. As mortes continuaram. O carteiro, o dono do posto de gasolina. Todos com aquele padrão: terror absoluto e as três marcas de garra, estranhamente cirúrgicas.

  13. A maioria dos moradores de Bortpokr culpava um "vagabundo" ou um "culto satânico". Ninguém queria acreditar no que Benner estava começando a aceitar: não era humano.

  14. Ele desenterrou velhos livros da biblioteca. Folheou registros de mineração e lendas folclóricas. Ele precisava de um nome para a coisa, uma maneira de classificá-la, antes que o medo o consumisse.

  15. Encontrou-o em um diário empoeirado de 1888: o Chthonos. A lenda falava de uma criatura das profundezas, atraída à superfície pelo calor, pela ganância ou, mais frequentemente, pelo medo.

  16. O Chthonos, dizia o diário, caçava por prazer e deixava a marca de sua trindade profana. E, crucialmente, ele era atraído por crianças e aqueles que se sentiam mais sós.

  17. A noite do vigésimo nono dia de outubro chegou com uma névoa espessa, uma mortalha branca que abraçava a cidade. Benner sabia que seria a noite da caçada final.

  18. Ele pegou sua espingarda, que parecia leve demais. No bolso, ele tinha uma corda de escalada de nylon, uma lanterna e um único frasco de querosene.

  19. O Delegado dirigiu a caminhonete lentamente até o milharal. Os caules secos rangiam no para-brisa, como unhas arranhando vidro.

  20. Ao chegar ao poço, a névoa era mais densa e o cheiro de água podre era esmagador. Ele viu as pegadas na lama: grandes e incomumente longas, com um rastro de arrasto central.

  21. O som veio de dentro do poço. Um som baixo, gutural, como o de um sapo gigante, mas com uma qualidade de choro que fez o pelo de Benner se arrepiar.

  22. Ele amarrou a corda em um toco de árvore forte e começou a descer, a lanterna balançando no cinto. A escuridão era fria, úmida, e o silêncio lá embaixo era total, exceto por sua respiração.

  23. A cerca de dez metros, o feixe de luz atingiu a água. Não era apenas água; era um líquido turvo e negro, brilhando com um estranho e doentio tom esverdeado.

  24. A criatura não estava na água. Ela estava esperando em um pequeno recesso na parede de pedra, logo acima da linha d'água.

  25. Era pequena, mas incrivelmente musculosa, com pele pálida e úmida que parecia couro de sapo. Sua cabeça era redonda e sem olhos, mas com uma boca que abria em um leque de dentes finos e afiados.

  26. Mas o que chocou Benner foram as garras. Eram longas, curvas, e eram três em cada mão. E estavam manchadas de sangue seco.

  27. O Chthonos soltou um som agudo, um grito de prazer faminto que fez Benner soltar a corda por um instante.

  28. Benner agiu por puro instinto policial. Ele sacou a espingarda, mirou na criatura que avançava no recesso e disparou. O rugido ecoou, ensurdecedor no confinamento, e o monstro guinchou.

  29. Ele derramou o querosene no recesso, o cheiro de combustível misturando-se à podridão, e atirou o fósforo aceso. A criatura soltou um grito de agonia, e Benner começou a subir, o calor do incêndio lambendo seus pés.

  30. Ele chegou à superfície, exausto, assistindo à fumaça cinzenta sair do buraco. O Chthonos estava morto, ou pelo menos silenciado. Benner sabia que Bortpokr poderia ter paz, mas a lembrança do buraco negro no chão de sua cidade, e o que espreitava nele, nunca o deixaria.

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