O comboio parou. Não houve súbito rasgar do tecido do mundo, apenas o estrondo surdo, metálico, da carroceria chocando-se contra outra carroceria, e o guincho lento e irritante do freio. Lá dentro, na escuridão fétida, Elihu, com seus doze anos mal traçados e o cotovelo dolorido, sentiu apenas a inércia, a repetição inútil de um movimento que já durava dias – um vaivém de corpos, um odor de urina e suor, e a permanente vigilância muda que se instalara em cada rosto, como uma máscara de cera. Não compreendia o comboio. Para ele, era apenas um espaço temporário, um compartimento de madeira onde a gravidade funcionava de forma mais cruel, jogando-o contra estranhos.
Lá fora, a luz era um insulto. Uma luz branca, áspera, que feria a retina e revelava a massa de uniformes cinzentos e a cerca de arame farpado, que parecia estender-se até onde a vista se perdia – um limite geométrico e absurdo. Elihu não viu o Mal, não o soube conceber. Viu apenas a Ordem. O grito rouco dos homens, o Schrei alemão que parecia sair não de uma garganta, mas de um megafone de metal, era, para ele, apenas um novo regulamento ruidoso. Mover-se rápido. Ficar em fila. Largar os embrulhos.
Ele notou a rapidez com que os adultos trocavam de papéis. O pai, que em casa era a autoridade silenciosa, agora era apenas mais um ombro curvado na multidão que se comprime, aceitando o empurrão como um desígnio natural. A mãe, a eterna guardiã das pequenas ordens domésticas, tinha o olhar fixo e vazio, como se tivesse perdido o fio de uma costura. A transformação do pai em massa foi a única observação clara que Elihu fez, e isso lhe causou um pequeno, mas duradouro, estranhamento. Onde estava a voz que decidia a hora do jantar?
Eles andaram. A seleção, mais tarde descrita como o momento da balança e do dedo, não foi mais do que um gesto funcional. Um homem gordo, de rosto inchado, vestindo luvas imaculadas que pareciam deslocadas naquele cenário de barro e cinza, agitou o dedo, ora para a esquerda, ora para a direita. Elihu foi para a direita. Foi-lhe dado um banho, raspada a cabeça, e então um uniforme listrado, absurdamente grande e com um cheiro enjoativo de desinfetante e alho. O absurdo residia na uniformidade imposta, na tentativa de tornar todos aqueles indivíduos, com seus medos e manias singulares, em unidades intercambiáveis da grande máquina do campo.
Os dias se seguiram, indistinguíveis. Elihu aprendeu a sobreviver por mimetismo cego. Se o outro corria, ele corria. Se o outro comia a sopa rala com fervor contido, ele também o fazia. Não se perguntava por que estava ali. A pergunta por que pertencia à vida antiga, à vida das aulas de geometria e das discussões sobre o tempo. Ali, a única pergunta permitida era "como": Como arranjar mais uma colher de sopa? Como evitar o olhar do guarda que parecia ter o poder de queimar? O Mal era, para Elihu, a fome persistente e o frio cortante, não a intenção por trás deles.
Ele via os outros desaparecerem. Não havia drama, nem discursos finais. Simplesmente, na contagem da manhã seguinte, o lugar do vizinho no beliche estava vazio. Às vezes, via o fumo denso no horizonte, com o cheiro adocicado, e ouvia as explicações sussurradas dos mais velhos: forno. Mas forno era onde a mãe assava o pão. A desconexão entre o signo e o significado era total. O mundo havia se tornado um dicionário de horror onde as palavras antigas não faziam sentido.
Ele se tornou um especialista em nada. Em resistir à dor do trabalho sem propósito, em entender o ritmo do corpo a se desmantelar lentamente, e em manter o olhar vazio para não ser notado. Sua mente, protegida pela camada de incompreensão adolescente, não processava a tragédia como um evento moral, mas como uma catástrofe natural, como um terramoto que o tinha apanhado no meio da rua.
Um dia, tudo se inverteu. O grito do megafone mudou de tom, soando apressado e incerto. O pânico não veio das vítimas, mas dos algozes. Os guardas correram, sumiram, e então, vieram outros homens, em uniformes diferentes, de outra cor, falando em outra língua. Eram os libertadores, mas para Elihu, eram apenas novos captores com regras menos claras. Deram-lhe pão e um casaco pesado.
Ele saiu, magro e pálido, um corpo estranho num mundo familiar. Voltou para onde a casa estava, mas a casa não estava mais lá, apenas a poeira e o silêncio. Ele era o sobrevivente acidental de uma equação que nunca conseguiu resolver.
Anos mais tarde, sentado em um banco de parque, Elihu – agora um homem – tentava explicar sua experiência. "Não aprendi nada lá", ele diria, com o tom de observador desinteressado que a experiência lhe conferiu. "Não houve revelação, nem epifania do mal. Eu não sabia por que fui, e não sei por que voltei. Fui um objeto transportado de um lugar para outro. Os outros falam de moral, de história, de castigo e redenção. Mas para mim, foi apenas a mudança de um regulamento de vida por outro. Uma paragem no comboio, e depois o caminho de volta, sem destino, sem perceber a razão, apenas a absoluta, fria, e funcional arbitrariedade do ser."
A maior tragédia, ele concluiu, não era o que viu, mas a total ausência de sentido que o impedia de atribuir ao horror qualquer valor, moral ou mesmo explicativo. Ele viveu o inferno não como um drama metafísico, mas como uma estranha e longa ausência de lógica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário