terça-feira, 4 de novembro de 2025

A Descida de Lázaro, ou: O Homem Oco à Espera da Água

 


I. O Estuário de Cinzas

Abril é o mês mais desolado, o que não desperta Nenhum lilás da terra já sepulta, a alma em abstinência. Lázaro, o que não morre, mas jaz à porta aberta De um quarto de aluguel, cinzento, sem clemência. Seus ossos são apenas caixotes e escombros, Empilhados na esquina, perto do Banco Lloyds. (Os ratos, veja bem, não fazem tais escombros.)

Onde está a voz que quebrou as pedras, que partiu o selo? Nenhum som, apenas o rangido do bonde na King William Street. Lázaro bebe o chá das cinco, amargo e amarelo, E observa o nevoeiro, denso, que a cidade repetete. "Minha vida, de fato, é uma sucessão de passos errados", Ele pensa, meditando sobre o Manual de Contabilidade da Semana. Não é morte, nem vida; é apenas o Tédio, o pior dos pecados, Que jaz sob a cinza, sem água, sem chama.

II. O Museu dos Espelhos Partidos

Andamos em círculo, diz Lázaro, na Praça da Mudez, Com as almas de palha presas sob o chapéu de feltro. Nós somos os Homens Ocos, e nossa maior sensatez É não esperar nada, nem mesmo o encontro.

A vida é uma vitrola que repete o mesmo Jazz insípido, Ta-ta-ta-tan, os sapatos sobre o asfalto úmido e velho. Onde está o Significado, o Grito ou o Gemido Decrépito? Apenas fragmentos que o vento dispersa, sem conselho. A estenógrafa, o comerciante, a dama que espreita A luz turva, buscando um encontro que não há. E Lázaro, no centro, vazio, a face desfeita, Um reflexo quebrado em qualquer água de bar.

III. A Água que Veio do Caminho

E então Ele veio. Não do Oriente, nem com trombetas douradas, Mas como um homem simples, ao cair da tarde, Sem glamour de profeta, sem as hordas ensaiadas. Mas a Sua presença dissolveu a neblina que arde.

Ele disse a Lázaro: "Sai, e Vê. A casca é teu engano." E a voz não era um sermão, mas a Torrente que quebra o gelo. O tempo de Lázaro, que era um esgotamento profano, De repente se fez presente, sem o medo do desvelo.

A Estrutura da Vida, que era Ferro e Calculadora, Ruiu. E os pedaços de vidro no chão fizeram-se Luz. Lázaro viu: A Morte não era um Fim, mas uma Porta Que só a Graça abria. E o Eu que Ele conduz.

IV. SHANTIH SHANTIH SHANTIH

Agora o rio corre, não mais com óleo e cimento, Mas com a Água da Vida que cura a visão. O coração de Lázaro, não mais um mero documento, Mas um fogo que irrompe, em plena conversão.

Ele que jazia na soleira, agora caminha. Não busca mais a paz na fuga ou no tédio, Mas na entrega que quebra a linha. Datta. Dayadhvam. Damyata. (Dê. Simpatize. Governe-se.)

Pois só a Luz, a única Luz, resgata o homem vão Da Terra Desolada onde a Sombra é o Pastor. Shantih. A paz que transcende. A final bênção. Shantih. Shantih. Shantih. O fim é o nosso Amor.

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