Na penumbra das genealogias,
o pergaminho range como porta de igreja,
cada letra é um suspiro de vento
que se proclama herdeiro de um trono invisível.
Yaish Ibn Yahya —
um nome dobrado como véu,
aponta para Davi
com a firmeza de quem aponta o dedo para o céu
em noite nublada.
Isaac Abarbanel,
com sua pena de ouro e pranto de exílio,
traça linhas como rios,
mas não desembocam em Belém,
apenas em sua própria saudade.
E Yahia Ben Rabbi,
ecoando entre pedras e conventos,
diz: “sou filho de reis”,
mas o eco responde:
“és filho apenas da tua voz”.
Ah, Portugal Hadash,
terra de inventar raízes como quem inventa santos,
cada pedra sonha ser Jerusalém,
cada sombra se veste de majestade.
Mas no fundo,
as coroas são de papel molhado,
as genealogias, poeira de arquivo,
e Davi — se acaso olhasse para trás —
riria como camponês diante de um teatro de fantoches.
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