segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Fusão Metafísica


1

No húmus vil da carne apodrecida,

a mente busca o Éter transcendental,

e na sabedoria hindu descida

a dor se transmuta em verbo universal.


2

Ó Índia! ventre negro da Verdade,

onde o Nirvana — abismo sideral —

dissolve o Eu na Cósmica Unidade

e faz do Nada um Êxtase imortal.


3

Vejo no Véu de Maya o Mundo inteiro,

fantasma em decomposição visível,

e o asceta, feito lúgubre coveiro,

despreza o corpo pútrido e falível.


4

Sobre cadáveres da existência crua,

a Mente canta em sânscrito febril,

o som da Vontade universal flutua

na podridão da Terra senil.


5

Eis que irrompe a sombra germânica altiva:

Schopenhauer, necrológico profeta,

que viu na Dor a forma mais cativa

da Vontade tirânica e secreta.


6

Ele, irmão do asceta hinduísta,

ergueu da Morte a taça pestilenta

e, com sarcasmo lúgubre, egoísta,

bebeu o Nada em taça macilenta.


7

Nos rios do Ganges, pútridos e santos,

na Alemanha sombria de fumaça,

ecoam, misturados em seus cantos,

a mesma voz que ao Desespero abraça.


8

O Védico e o filósofo germano

se encontram sobre o túmulo do Eu,

e ambos, em silêncio sobre-humano,

beijam o pó que o Cosmos lhes deu.


9

Caveiras cantam hinos metafísicos,

ossos ressoam cânticos sutis,

e os vermes, em festins hieroglíficos,

celebram o Vazio que os unis.


10

Ó Schopenhauer! ó vates orientais!

Vossa aliança é lúgubre e fecunda:

um mundo em putrefação jamais

ousou cantar a Dor tão profunda.


11

Nirvana! — soluço em pó, silêncio eterno!

Vontade! — flagelo universal!

Ambos unidos no abismo moderno,

revelam a essência do Mal.


12

E quando a Carne for só cinza morta,

quando o Caixão se fechar sobre o Nada,

a Voz do Hindu e a do Germano exorta:

— Sofrer é a Lei, mas negar é a Estrada.




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