A neve caía em silêncio, como se o céu tivesse escolhido guardar suas palavras para outro tempo. Cada floco que pousava no chão era um fragmento de eternidade, e a floresta inteira parecia suspensa em um sonho branco. Foi então que, entre as árvores cobertas de gelo, surgiu uma figura insólita. Seus cascos batiam ritmicamente no solo, deixando marcas profundas no caminho gelado. O tronco era de homem, o passo era de fera, e havia em seu rosto algo de melancólico, como se carregasse nos olhos a lembrança de histórias antigas, já quase esquecidas. Na mão direita, firme, ele segurava um guarda-chuva negro. Estranho objeto em meio ao silêncio da nevasca, mas natural como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. O fauno caminhava sem pressa, como quem não teme nem o frio nem o tempo, como quem guarda segredos que não se revelam de imediato. Ao redor dele, as árvores se inclinavam suavemente, pesadas de neve, como se o saudassem em silêncio. O vento, ao passar, não ousava erguer-se em tormenta: parecia respeitar aquele passo solene, aquela estranha união de criatura e mundo. E o fauno, indiferente à eternidade do inverno, caminhava com seu guarda-chuva aberto — não para se proteger da neve, mas como quem carrega um estandarte em um reino encantado. Cada gesto seu dizia que, mesmo no mais vasto silêncio, há sempre uma história à espera de quem ousa escutar.
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