terça-feira, 26 de agosto de 2025

A Cantora e o Coelho - conto



       Ela subiu ao palco como se carregasse o mundo nos ombros, os sapatos rangendo suavemente sobre a madeira polida, o vestido negro colando-se ao corpo como segunda pele, e a luz incidindo sobre seu cabelo solto, refletindo uma promessa de grandeza que ninguém poderia medir.

O piano começou a soar, notas que se arrastavam e ao mesmo tempo saltavam, preenchendo o teatro com uma expectativa líquida, e ela sentiu a familiar mistura de nervosismo e êxtase, aquela sensação de que cada gesto seu seria insubstituível, como se pudesse tocar todos os corações de uma só vez.

Enquanto cantava, a garganta lhe parecia não apenas um canal de voz, mas um espaço de profundidade inimaginável, onde algo habitava, pulsava, esperava, algo que não podia ser nomeado nem previsto, e que crescia a cada melodia que se expandia no ar.

E então, no auge da canção, o inesperado aconteceu: um coelho, branco e assustado, emergiu de sua boca, pequeno demais para ser entendido, mas suficientemente presente para transformar cada nota em um eco de incredulidade e maravilha, e ela continuou cantando, porque a música era mais forte que o espanto.

O público congelou, dividido entre o riso nervoso e o horror contido, entre o desejo de aplaudir e a necessidade de recuar, enquanto o coelho girava entre os pés do piano e as luzes, saltitando como se tivesse sido convocado diretamente de um sonho ou de um pesadelo antigo.

Ela sentiu a estranha sensação de que aquilo não era um acidente, mas uma consequência inevitável de tudo que havia engolido ao longo da vida, das palavras guardadas, dos silêncios, das angústias, e os coelhos agora pareciam multiplicar-se, alguns brancos, outros com manchas cinzentas, alguns com olhos que refletiam fogo e consciência.

A música se transformou em um diálogo impossível, em que cada verso produzia novas criaturas, novas presenças que saltavam e rodopiavam no ar, enquanto ela, completamente absorvida, sentia-se ao mesmo tempo cantora e médium, criadora e refém de uma orquestra que ninguém mais poderia ouvir.

O teatro desapareceu, ou talvez se tivesse transformado em uma massa indistinta de respirações e sombras, e os coelhos não eram mais apenas coelhos, mas símbolos vivos, imagens concretas de intenções e segredos que sempre estiveram escondidos sob a superfície do cotidiano.

Ela continuava a cantar, já sem saber se cada nota era dela ou deles, se cada respiração era um gesto de coragem ou apenas um reflexo do absurdo do mundo, e percebeu que jamais poderia separar a música do corpo estranho que emergia, daquilo que era real e daquilo que pertencia apenas ao imaginário coletivo da plateia que já não existia.

Quando a última nota se perdeu, ela caiu de joelhos, ofegante, o palco coberto de coelhos que a observavam com olhos de quem conhece todos os mistérios do universo, enquanto ela apenas respirava, tentando se reconhecer, tentando entender a própria estranheza de existir naquele momento único.

Ela saiu do teatro como se estivesse flutuando, deixando atrás de si um rastro de silêncio e assombro, enquanto o vento soprava leve entre os prédios, levando consigo os coelhos que desapareciam em esquinas, frestas e sombras, e a música continuava, invisível, nos ouvidos de quem ousasse ainda sonhar.

E assim ficou a lembrança, difusa e hipnótica, como se tudo tivesse sido um sonho, ou talvez uma profecia, e a cantora caminhava entre ruas molhadas e sinais apagados, com o corpo leve e a mente cheia, sabendo que jamais poderia cantar de novo sem que cada nota carregasse a memória daquilo que vomitou em forma de vida, uma estranha e bela catástrofe chamada coelhos.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário