quarta-feira, 4 de junho de 2025

Rainha do Asfalto

 Rainha do Asfalto



No salto quinze, reluz a danada,
negra de ébano, sombra encarnada.
Vem com a noite presa nos quadris,
e um deus pendurado entre os dois jasmins.

Cabelo de incêndio, boca de lança,
peito em postiço, alma de criança.
Mas o que pulsa sob a minissaia
faz santo suar, faz freira desmaia.

Chega ao bar com cheiro de pecado,
pintura de guerra, sexo armado.
Seu pau — poema que não rima com medo —
é cetro de espuma, furacão sem segredo.

Chama-se Rita, ou talvez Raquel,
mas ninguém decora — só geme no céu.
No beco, no carro, no quarto alugado,
faz do prazer um rito sagrado.

É carne que dança sem ter patrão,
é faca sem bainha, é revolução.
Mete, mas beija. Bate, mas chora.
É homem? É deusa? É tudo e agora.

Os homens casados fingem desdém,
mas sonham com ela também.
Pois sua nudez é um grito aberto
num mundo covarde, torto e encoberto.

Não é só carne — é a própria lei
que fura o script do que serei.
E quem a toca, se transforma inteiro:
vira silêncio, gozo, riso, janeiro.

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