— Ela tem as coxas da Brigitte Bardot.
— Que Brigitte, querido, a do Deus criou a mulher ou a do O desprezo?
— A primeira. Aquela que fazia o padre suar no confessionário.
— Você quer transar com ela, é isso?
— Quero.
— Mentira. Você quer ser ela.
— Também. Mas isso não impede, né?
(Risos abafados. O som de gelo no copo. Um ventilador girando no teto.)
— Sabe o que eu queria mesmo? Que ela nos convidasse pro apê dela e dissesse: “Meninos, podem brincar comigo como se eu fosse um parquinho.”
— Você não sabe brincar nem consigo, vai saber com ela?
— Se você quiser, eu te ensino.
(Silêncio. Um ruído de cigarro sendo aceso. Uma respiração mais funda.)
— Acha que ela toparia?
— Ela tem namorado.
— Eu também tinha, e nem por isso deixei de…
— Eu sei. Eu tava lá.
(Mais silêncio. O ventilador ainda gira.)
— Por que a gente não tenta?
— Porque a gente não quer ela. Quer a ideia dela.
— E qual é a ideia?
— Um lugar onde a gente possa ser outra coisa, sem deixar de ser o que é.
(Pausa longa. Um gelo escorrega no copo.)
— Eu te beijaria agora, sabia?
— Mas a gente é amigo.
— É por isso mesmo.
— Amigo não beija.
— Amigo que quer beijar, beija. Se não beija, vira inimigo de si mesmo.
(Suspiro. Uma janela que range.)
— Você não precisa de uma mulher.
— Eu sei.
— E nem eu.
— Então por que a gente fantasia com isso?
— Porque é mais fácil do que admitir que eu te amo desde a primeira vez que você riu com a boca torta.
(Pequena risada. Um copo pousado na mesa.)
— E se eu disser que também te amo?
— Aí a gente transa. Sem precisar ser mulher, sem precisar ser outro.
(O ventilador gira. O som da respiração é diferente agora. Mais perto. Mais leve. Mais quente.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário