terça-feira, 17 de junho de 2025

Quase Ela

 


— Ela tem as coxas da Brigitte Bardot.
— Que Brigitte, querido, a do Deus criou a mulher ou a do O desprezo?
— A primeira. Aquela que fazia o padre suar no confessionário.
— Você quer transar com ela, é isso?
— Quero.
— Mentira. Você quer ser ela.
— Também. Mas isso não impede, né?

(Risos abafados. O som de gelo no copo. Um ventilador girando no teto.)

— Sabe o que eu queria mesmo? Que ela nos convidasse pro apê dela e dissesse: “Meninos, podem brincar comigo como se eu fosse um parquinho.”
— Você não sabe brincar nem consigo, vai saber com ela?
— Se você quiser, eu te ensino.

(Silêncio. Um ruído de cigarro sendo aceso. Uma respiração mais funda.)

— Acha que ela toparia?
— Ela tem namorado.
— Eu também tinha, e nem por isso deixei de…
— Eu sei. Eu tava lá.

(Mais silêncio. O ventilador ainda gira.)

— Por que a gente não tenta?
— Porque a gente não quer ela. Quer a ideia dela.
— E qual é a ideia?
— Um lugar onde a gente possa ser outra coisa, sem deixar de ser o que é.

(Pausa longa. Um gelo escorrega no copo.)

— Eu te beijaria agora, sabia?
— Mas a gente é amigo.
— É por isso mesmo.
— Amigo não beija.
— Amigo que quer beijar, beija. Se não beija, vira inimigo de si mesmo.

(Suspiro. Uma janela que range.)

— Você não precisa de uma mulher.
— Eu sei.
— E nem eu.
— Então por que a gente fantasia com isso?
— Porque é mais fácil do que admitir que eu te amo desde a primeira vez que você riu com a boca torta.

(Pequena risada. Um copo pousado na mesa.)

— E se eu disser que também te amo?
— Aí a gente transa. Sem precisar ser mulher, sem precisar ser outro.

(O ventilador gira. O som da respiração é diferente agora. Mais perto. Mais leve. Mais quente.)

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