Eu era pintor, ou melhor, um daqueles que se iludem com a ideia de que a arte vai salvar a alma. Mas a minha alma estava podre, e a tinta no meu pincel só servia pra esconder isso. Foi numa dessas noites que eu a vi pela primeira vez — uma travesti negra, linda demais pra esse mundo de concreto e fumaça. Ela tinha um jeito de andar que te deixava sem ar, sabe? Não era só o corpo, era o mistério no olhar, como se carregasse uma tempestade inteira dentro de si. Eu, que só queria uma musa, um motivo pra pincelar cores no vazio, acabei me apaixonando por ela antes mesmo de saber o nome. O programa foi rápido, naquela pensão barata, mas intenso. Eu chupava ela como se fosse a última vez, e ela gemia baixinho, um som que grudou na minha pele. O cheiro dela, o gosto, tudo ficou grudado na minha memória como tinta fresca. Depois, com ela ainda quente na minha cabeça, fui pro estúdio. Passei horas, noites, dias — não sei — pintando o retrato. Cada traço era uma mistura do desejo e da beleza crua que ela exalava. Quando terminei, o quadro parecia respirar, como se ela tivesse pulado da tela pra dentro da minha alma. Mas na manhã seguinte, quando acordei, ela já tinha sumido. Não uma partida qualquer, mas um desaparecimento de verdade, como se tivesse evaporado na noite. A janela estava aberta, e só restava o cheiro dela no ar, misturado ao cheiro de tinta. O retrato ficou ali, parado na parede, um fantasma pintado que ninguém mais podia tocar. E eu, eu fiquei ali, tentando entender se ela foi real ou só mais uma imagem que minha solidão pintou pra me enganar.
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