domingo, 1 de junho de 2025

O Espelho de Areia

 O Espelho de Areia

Em Sevilha, numa casa esquecida pelo tempo e pela pressa, vivia Alonso Yuste, um bibliotecário de meia-idade cuja vida era marcada por hábitos monótonos e sonhos tão vívidos que, às vezes, se confundiam com lembranças. Durante anos, Alonso sonhava com um mesmo cenário: uma noite silenciosa, a areia morna do deserto, e ao fundo, as pirâmides do Egito – aquelas que o tempo tentou apagar, mas que permaneciam como cicatrizes no rosto da Terra.

No sonho mais recente, um homem envolto em linho branco sussurrava: “O tesouro está no âmago do tempo. Venha.” O sonho persistia como um eco que se recusa a morrer, e Alonso, homem de poucas ousadias, decidiu finalmente partir.

Vendeu os poucos livros que ainda lhe pertenciam, ignorou o escárnio dos amigos e embarcou numa longa travessia até o Cairo. Sua chegada coincidiu com uma tempestade de areia, como se o próprio deserto se recusasse a revelá-lo. Vagueou por dias, guiado apenas pelas coordenadas vagas do sonho e por um pressentimento que se aproximava perigosamente da fé.

Em uma noite sem lua, já aos pés da pirâmide de Quéops, Alonso encontrou um homem sentado entre as sombras das pedras milenares. Era um velho com os olhos dele, o gesto dele, e a voz – embora mais gasta pelo tempo – também era sua.

— Finalmente — disse o velho. — Estive esperando por mim mesmo.

O choque não o derrubou, como esperaria qualquer lógica. Borges teria dito que o tempo é um círculo, ou uma tapeçaria cujos fios se entrelaçam em padrões que apenas Deus entende.

— Você é...?

— Tu. Ou aquilo que serás. Ou talvez, aquilo que nunca foste, mas sonhastes ser. Pouco importa. O tesouro que procuras não está aqui.

— Então por que sonhei com isso?

— Porque o sonho é o espelho da necessidade. Precisavas partir para poder voltar. Só assim saberás o que realmente é teu. O verdadeiro tesouro... — disse o velho, colocando a mão no peito — ...é o que deixaste em tua ausência.

E com isso, o velho desapareceu, tragado pela areia, como se nunca tivesse existido. Alonso voltou à Espanha. Noite de Natal, nevava suavemente em Sevilha, milagre raro. Ao abrir a porta de casa, foi recebido com abraços, risos, o cheiro de vinho quente e canela. Sua mãe, seus irmãos, sobrinhos, até um tio que julgava morto. Nenhum deles comentou sua partida.

A mesa posta, as vozes cruzando-se em mil conversas simultâneas, a luz trêmula das velas refletida no vidro da cristaleira. Alonso olhou em volta e percebeu que ali, naquele instante que talvez durasse para sempre, estava o ouro que os faraós não enterraram: o calor de um lar, o riso de quem se ama, e a certeza inefável de pertencer.

Mais tarde, sozinho em seu quarto, olhou para o espelho — por um momento, pensou ver o velho sorrindo. Então compreendeu: o sonho era real, mas o real também era um sonho, e ambos eram apenas formas do mesmo labirinto.

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