domingo, 1 de junho de 2025

O Escriba do Fim

 

O Escriba do Fim

Ninguém sabia ao certo de onde ele viera. Surgiu um dia na aldeia como as nuvens de setembro: cinzento, silencioso, e carregado de mistério. Diziam que atravessara desertos de sal onde os mortos sussurram conselhos aos vivos, que passara vinte anos vivendo numa biblioteca abandonada onde os livros trocavam de lugar à noite, e que carregava dentro de si o idioma perdido dos primeiros homens.

Chamava-se Melquíades (ou talvez apenas se chamava assim por respeito ao primeiro escriba que lhe aparecera em sonho). Trazia consigo apenas um caderno grosso, encapado com couro de vaca sacrificada na primeira lua cheia do ano, e uma pena feita com a última pluma de um corvo albino que caíra morto no seu ombro, certa manhã, como uma benção maldita.

Desde o primeiro dia, dizia a quem quisesse ouvir — e mesmo a quem não quisesse — que escreveria o Livro da Vida, o livro onde cada nascimento, cada alegria e cada desgraça estariam registrados com a exatidão de um destino. A aldeia, claro, riu dele, como se ri dos que anunciam milagres com roupas de remendo e olhos de febre. Mas quando a filha do ferreiro engravidou depois que ele escreveu sobre um nascimento imprevisto, pararam de rir. Quando a velha Rosa morreu no mesmo dia que ele anotara "uma morte doce como figo passado", passaram a temê-lo. E quando o pároco encontrou descrita, com antecedência, sua própria dúvida de fé numa folha esquecida sob a porta da sacristia, selaram o destino do escriba com um silêncio reverente.

Aos poucos, passou a viver isolado, numa casa sem espelhos e com janelas trancadas por dentro. Cada noite, à luz de velas que queimavam com uma chama azulada, escrevia sem parar. Não escrevia por escolha, mas por compulsão. As palavras brotavam-lhe dos dedos como sangue de uma ferida que nunca cicatriza. Certa vez, ao escrever a frase “o céu escurece mesmo ao meio-dia”, as nuvens cobriram o sol por cinco dias. Noutra, ao anotar que “os mortos começam a falar na estação das cigarras”, toda a vila ouviu, numa madrugada febril, vozes que vinham do fundo dos poços.

Melquíades não era um homem feliz. O fardo da escrita tornara-o pálido, o sorriso rareava como as chuvas de verão, e seu corpo encurvava-se como se cada palavra escrita lhe retirasse um grama da alma. Mas seguia. E quanto mais escrevia, mais notava algo estranho: as histórias deixavam de ser gerais, e tornavam-se íntimas demais. Apareciam nomes que ele nunca contara a ninguém, memórias de infância que julgava perdidas, e uma descrição exata de sua casa — inclusive o segredo do alçapão sob o assoalho, que ele jurava nunca ter revelado.

Aos poucos, começou a compreender. Não estava escrevendo o Livro da Vida. Estava escrevendo o Livro de Sua Vida. E como todo livro tem fim, começou a temer o ponto final mais do que qualquer morte anterior.

Tentou parar. Guardou o caderno, enterrou a pena sob um limoeiro seco, acorrentou as mãos com nós de pano como se fossem bichos. Mas o livro continuava a escrever-se, sozinho, à noite, no escuro, com letras brancas sobre a parede, com traços invisíveis nas suas costas. Dormia e sonhava frases. Acordava com o gosto de tinta na língua. A cada dia, uma nova sentença se formava, como uma doença crescendo em silêncio.

Foi então que, certa noite, escreveu sem querer:
"Hoje será seu último dia."

Leu a frase como quem lê o veredicto de um deus cego. E pela primeira vez em anos, chorou. Não por medo, mas por compreender que ninguém escapa daquilo que escreve com sinceridade.

Vestiu sua melhor roupa. Preparou um café amargo. Abriu as janelas pela primeira vez em décadas. Sentou-se diante do caderno com a serenidade de quem entra no próprio túmulo e escreveu, sem pressa, a última frase:
“O escriba, cansado do mundo, adormeceu.”

Não houve trovão. Nem luz. Apenas um perfume de flor recém-cortada, e um suspiro vindo de nenhuma parte.

Quando encontraram seu corpo, já frio, as folhas do caderno estavam em branco. Todas. Com exceção da última, onde lia-se:

“Quem escreve a vida, escreve a morte. E quem escreve a morte, torna-se eterno.”

Desde então, ninguém mais ousou tocar o livro. Dizem que, à noite, ele ainda se escreve sozinho. E que, de tempos em tempos, uma nova página aparece com o nome de alguém da aldeia.

E há quem diga que Melquíades sorri, agora, do outro lado das palavras.

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